estranhas violetas 🌺

POEMA - um gaguejar de quases

um quase-pai teve um quase-filho.

não o teve,

o fez.

/

não sozinho, mas pra ele foi.

roga essa feitura,

como se tivesse alguma coisa com isso.

/

ele definitivamente não o teve.

quem o teve foi a quase-mãe.

/

ele o fez e lá ele deixou.

um quase lá, evidentemente.

uma quase-família, uma meia-coisa.

/

durou alguns meses, essa bela fantasia.

esse tal todo.

/

depois uma quase-razão condenou-os,

e ficou-se aí no meio.

/

lá a meia-mãe que restou,

tendo de ser,

mesmo que quase.

/

quase sendo,

teve de ser o que não era.

dizem que foi,

ela mesma diz.

precisa repetir, sempre.

talvez por medo,

talvez por não crer absolutamente,

por não entender como fora,

mesmo não sendo.

aí precisa convencer-se

como se quase não fosse.

como quase não é.

/

o quase-filho ficou ali,

como todo filho,

porém, em partes.

uma soma de partes,

e não todo.

um quase.

partes de um quase.

qualitativamente quase,

pois teoricamente,

nada lhe falta mais.

/

o que faltava,

deixou-lhe.

e ele deixou,

de ter essa falta.

/

e a quase-criança ali ficou,

engoliu uma expectativa,

cansou de olhar para portas,

e estradas,

e tentar ver lá esse

quase,

que não lhe é.

mas que dizem,

esses aí que tem bocas,

que era para ter sido.

/

nem quase me parece,

esse aí que dizem,

e que me fez.

que me dizem,

que é quase-pai.

/

mas é difícil confessar:

dá pra se viver

de quases.

/

não se morre:

nem de fome,

nem de frio,

nem de suor,

nem de falta.

mas quase.

/

é viver sempre quase se indo,

em definitivo.

mas não acontece.

sempre tarda.

tardado.

adiado.

nem adiado,

porque nem esperado.

é um esquecido,

mas de um esquecimento

sem memória.

uma quase-lembrança,

pois seria lembrança,

daquilo que nem foi.

/

aos que são

ou que foram,

completos,

resta esse peso.

herda-se coisas

herda-se durezas.

/

e tende-se à desarranjar.

pois completo, sempre o era.

o completo sempre foi.

/

e para aqueles que quase,

resta-se pouco,

areja-se,

nesse todo do não ter sido,

nesses tantos quases,

acaba havendo porosidade

uma leveza do incompleto.

/

é possível então,

ser quase-completo.

ou seja, incompleto nato.

/

admitindo suas parcelas de quase,

especialmente gordas.

enxergando os cantos todos,

que rondam essas quase-coisas.

se é quase, que completo.

/

nada disso é isento de uma dor,

de ser quase.

padecer da febre de nunca ser,

esse suficiente.

que pra um quase, é fantasma.

/

o que lhe resta senão quase?

/

de lhe entregar a mão,

num quase aperto.

/

de dar os lábios,

num quase beijo.

/

de esquecer o coração,

num quase amor.

/

de perder a palavra,

numa quase sentença.

/

de sussurrar uma saudação,

em uma quase confidência.

/

gaguejar no ser,

sendo quase.

/

esse gaguejo.

de estar sendo um quase cá,

enquanto tento em vão,

estar aí.

de encontro ao quase teu.

te dando,

aquilo que quase-sou,

para ser um quase-teu.

para tu me dar,

aquilo que não posso,

não tenho.

e não quero.

para que tu tome essa

minha carência de destino

como a flauta que vai produzir,

as doces notas de nossos filhos.

//

~ Well

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