POEMA - Poema paterno
Queria ser dono da beleza de tuas pausas
Ser a razão de seus suspiros
Ter o teu cheiro em um frasco chamado casa,
em uma caixa murada de presente aos meus pais e vizinhos.
Veja: minha mulher!
Em seguida, filhos.
Para só a partir daà ter as sinceras desculpas de meu lapso,
enquanto contemplo sua indignação na noite escura.
Ter a vergonha dissimulada de um porre em uma casa não rebocada,
berrada por ti:
Sem vergonha!
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Queria eu te trair com o tesão do meu segredo,
e te comer com as migalhas de meu amor.
Queria eu ter pena da precariedade de sua pança,
da tolice de sua espera,
do esvaziamento de tua novela,
e das flores esmaltadas de suas unhas,
ignoradas por mim,
por eles,
por nós,
por todos.
Menos por ti: a precária
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O cheiro de creme na onipresença do colo,
o miojo no prato da criança.
A televisão berrando propagandas, e nós os mortos,
adiados, e nas cadeiras de praia.
Entre nós os pratos duralex sujos de comida:
Eis aà a janta de famÃlia,
onde se diz algo,
se confessa o dia,
se ouve o dito,
e também lugar da pequena bondade,
crédito da previdência de culpa que são nossos filhos,
na espera de um sussurro inesperado de um Deus negligente
//
Morremos assim,
e nunca te amei
//
Amei talvez a esquina de tua anca por 4 horas,
e disso vivi da memória.
Uma caricatura de meu desejo é a nossa famÃlia, sendo
o moleque um aborto não resolvido, e
a filha a tragédia de nossa esperança ainda para ser paga
//
Morremos eu e tu
enterrados pela chaga que são os nossos filhos.
E valeu alguma coisa?
Nada.
Não valemos nada.
//
~ Well