estranhas violetas 🌺

POEMA - Poema paterno

Queria ser dono da beleza de tuas pausas

Ser a razão de seus suspiros

Ter o teu cheiro em um frasco chamado casa,

em uma caixa murada de presente aos meus pais e vizinhos.

Veja: minha mulher!

Em seguida, filhos.

Para só a partir daí ter as sinceras desculpas de meu lapso,

enquanto contemplo sua indignação na noite escura.

Ter a vergonha dissimulada de um porre em uma casa não rebocada,

berrada por ti:

Sem vergonha!

//

Queria eu te trair com o tesão do meu segredo,

e te comer com as migalhas de meu amor.

Queria eu ter pena da precariedade de sua pança,

da tolice de sua espera,

do esvaziamento de tua novela,

e das flores esmaltadas de suas unhas,

ignoradas por mim,

por eles,

por nós,

por todos.

Menos por ti: a precária

//

O cheiro de creme na onipresença do colo,

o miojo no prato da criança.

A televisão berrando propagandas, e nós os mortos,

adiados, e nas cadeiras de praia.

Entre nós os pratos duralex sujos de comida:

Eis aí a janta de família,

onde se diz algo,

se confessa o dia,

se ouve o dito,

e também lugar da pequena bondade,

crédito da previdência de culpa que são nossos filhos,

na espera de um sussurro inesperado de um Deus negligente

//

Morremos assim,

e nunca te amei

//

Amei talvez a esquina de tua anca por 4 horas,

e disso vivi da memória.

Uma caricatura de meu desejo é a nossa família, sendo

o moleque um aborto não resolvido, e

a filha a tragédia de nossa esperança ainda para ser paga

//

Morremos eu e tu

enterrados pela chaga que são os nossos filhos.

E valeu alguma coisa?

Nada.

Não valemos nada.

//

~ Well

#poemas