estranhas violetas 🌺

POEMA - Ode à hemorroida

evito palavras demais, pois sou pouco.

vírgulas muitas e palavras difíceis.

poucas. necessárias, convenientes.

procuro profundidade num lirismo tolo.

repito meus sentimentos para mim, e para mim

mas é para outros

esse para mim.

/

me orgulho de escrever sobre mim,

nunca escrevo sobre aqueles tantos outros antes de mim.

leio para ser lido;

marco para ser marcado;

respondo para ser ouvido:

só eu falo.

o falo;

o pênis.

/

vejo meu umbigo na face de meus leitores,

esses poucos meus. esses vários poucos.

e faço de meu gozo o suco de minha falsa hospitalidade.

a corda de Hitchcock eu uso como colar em sua frente.

lhe convido para entrar, e lhe mato sem tu perceber que morre.

/

e é assim que corro pelas palavras:

buscando tudo aquilo o que elas não dizem.

apenas pelo belo do dito,

dito,

dito,

dito,

e repetido eu dito.

eu dito,

eu digo.

/

não falo a ninguém.

só a mim.

ode,

uma ode a ele,

aquele ali,

o espelho, a mim.

sou eu.

só eu.

aos que li, que já morreu,

sempre mortos aquele que leio,

sempre tolos aqueles que estão vivos,

esses que mato,

e mato,

até eles morrerem,

e viverem suas vidas como mortos.

/

é o escrito sem caso pra tapar furo,

um entretempo.

escrevo para convencer-me que escrevo,

pois me basta apenas isso: convencer.

passo o dedo no meu furo, limpo as bordas,

e o lambo, com a ereção aos céus.

/

aí eu enfio essas palavras ensebadas entre os algoritmos,

para aqueles 3 que vão ler.

enquanto cagam, ou praguejam, ou enquanto se esquecem

daquilo que nem lembram.

acima de 1000 palavras é intolerável:

à hemorroida!

6 minutos perdidos no solipsismo do ânus daquele que não sou eu?

não perderei meu tempo.

/ /

~ Well

#poemas