POEMA - Ode à hemorroida
evito palavras demais, pois sou pouco.
vírgulas muitas e palavras difíceis.
poucas. necessárias, convenientes.
procuro profundidade num lirismo tolo.
repito meus sentimentos para mim, e para mim
mas é para outros
esse para mim.
/
me orgulho de escrever sobre mim,
nunca escrevo sobre aqueles tantos outros antes de mim.
leio para ser lido;
marco para ser marcado;
respondo para ser ouvido:
só eu falo.
o falo;
o pênis.
/
vejo meu umbigo na face de meus leitores,
esses poucos meus. esses vários poucos.
e faço de meu gozo o suco de minha falsa hospitalidade.
a corda de Hitchcock eu uso como colar em sua frente.
lhe convido para entrar, e lhe mato sem tu perceber que morre.
/
e é assim que corro pelas palavras:
buscando tudo aquilo o que elas não dizem.
apenas pelo belo do dito,
dito,
dito,
dito,
e repetido eu dito.
eu dito,
eu digo.
/
não falo a ninguém.
só a mim.
ode,
uma ode a ele,
aquele ali,
o espelho, a mim.
sou eu.
só eu.
aos que li, que já morreu,
sempre mortos aquele que leio,
sempre tolos aqueles que estão vivos,
esses que mato,
e mato,
até eles morrerem,
e viverem suas vidas como mortos.
/
é o escrito sem caso pra tapar furo,
um entretempo.
escrevo para convencer-me que escrevo,
pois me basta apenas isso: convencer.
passo o dedo no meu furo, limpo as bordas,
e o lambo, com a ereção aos céus.
/
aí eu enfio essas palavras ensebadas entre os algoritmos,
para aqueles 3 que vão ler.
enquanto cagam, ou praguejam, ou enquanto se esquecem
daquilo que nem lembram.
acima de 1000 palavras é intolerável:
à hemorroida!
6 minutos perdidos no solipsismo do ânus daquele que não sou eu?
não perderei meu tempo.
/ /
~ Well