estranhas violetas 🌺

POEMA - O copo

entre mim e ele,

uma intimidade.

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nele sorvo,

senão padeço.

//

ele me obriga,

é um instrumento de ordem.

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poderia beber com as mãos,

mas molharia as folhas de papel que escrevo.

e nelas há palavras tão secas,

tenebrosas,

informativas,

cientes.

//

a folha de papel é definitiva.

a caneta, ainda mais (graças a deus o lápis)

e o copo ajuda guardar esse molhado,

que é sempre meio obsceno,

íntimo,

mijado,

gozado.

//

bebo nele a água dos poços,

a química de tubos,

uma expectativa da calma, com açúcar.

//

entre eu e o copo,

um silêncio molhado.

//

bebo pra vomitar esse silencio,

para desengasga-lo

de uma traqueia

que até tem palavras,

mas elas não endereçam

nada.

//

o copo é a palavra,

e nela não boto nada.

//

minha mãe sempre tem copos novos,

no alto do armário.

para visitas.

diz ela.

//

visitas são raras.

e na casa

acumulo copos.

todos novos.

até bonitos,

cheios de curvas,

de cor azul,

raros,

duros.

arredondados, protuberantes.

copos que despertam

uma fase oral infantil.

de morder o vidro,

que tem uma curva quase cremosa.

//

porém, vazios.

//

compro até armários novos,

para tantos copos.

//

dia desses fui na casa da minha mãe.

ela me serviu um copo estranho.

encarei ela espantado:

que é mãe?

fui tão longe assim?

ela balançou a cabeça.

para qual direção é segredo,

que só eu sei.

//

mas agora o copo é conhecido.

deixou de ser aquele lá de cima,

e ficou aqui debaixo.

//

foi sujo de água?

de minha saliva?

//

de qualquer forma,

foi tomado.

//

agora impuro.

tal qual o dito,

dificilmente esquecido.

pode se dizer outra coisa,

desviar,

justificar,

suplicar.

//

mas desdizer?

depois de dito,

definitivo.

//

maldito quem escuta,

mas inevitável.

não é mais meu,

o que disse.

//

a água do copo,

não é dele.

nunca foi.

e ele sabe.

instrumento honesto,

transparente.

//

por isso é bom quebrar eles,

as vezes.

é o perdão impossível de minha saliva,

quebrar copos.

//

vai ver é por isso que se quebram eles,

em brigas.

//

mas veja,

o mundo seria insuportável

se copos fossem inquebráveis.

todos já feitos,

nos restando deles só sorver.

//

beber num já feito,

e nos engasgar

de coisas já ditas,

e não daquele

silencio,

que em cada copo vazio,

aguarda ser servido.

/ /

~ Well

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