POEMA - O copo
entre mim e ele,
uma intimidade.
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nele sorvo,
senão padeço.
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ele me obriga,
é um instrumento de ordem.
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poderia beber com as mãos,
mas molharia as folhas de papel que escrevo.
e nelas há palavras tão secas,
tenebrosas,
informativas,
cientes.
//
a folha de papel é definitiva.
a caneta, ainda mais (graças a deus o lápis)
e o copo ajuda guardar esse molhado,
que é sempre meio obsceno,
Ãntimo,
mijado,
gozado.
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bebo nele a água dos poços,
a quÃmica de tubos,
uma expectativa da calma, com açúcar.
//
entre eu e o copo,
um silêncio molhado.
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bebo pra vomitar esse silencio,
para desengasga-lo
de uma traqueia
que até tem palavras,
mas elas não endereçam
nada.
//
o copo é a palavra,
e nela não boto nada.
//
minha mãe sempre tem copos novos,
no alto do armário.
para visitas.
diz ela.
//
visitas são raras.
e na casa
acumulo copos.
todos novos.
até bonitos,
cheios de curvas,
de cor azul,
raros,
duros.
arredondados, protuberantes.
copos que despertam
uma fase oral infantil.
de morder o vidro,
que tem uma curva quase cremosa.
//
porém, vazios.
//
compro até armários novos,
para tantos copos.
//
dia desses fui na casa da minha mãe.
ela me serviu um copo estranho.
encarei ela espantado:
que é mãe?
fui tão longe assim?
ela balançou a cabeça.
para qual direção é segredo,
que só eu sei.
//
mas agora o copo é conhecido.
deixou de ser aquele lá de cima,
e ficou aqui debaixo.
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foi sujo de água?
de minha saliva?
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de qualquer forma,
foi tomado.
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agora impuro.
tal qual o dito,
dificilmente esquecido.
pode se dizer outra coisa,
desviar,
justificar,
suplicar.
//
mas desdizer?
depois de dito,
definitivo.
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maldito quem escuta,
mas inevitável.
não é mais meu,
o que disse.
//
a água do copo,
não é dele.
nunca foi.
e ele sabe.
instrumento honesto,
transparente.
//
por isso é bom quebrar eles,
as vezes.
é o perdão impossÃvel de minha saliva,
quebrar copos.
//
vai ver é por isso que se quebram eles,
em brigas.
//
mas veja,
o mundo seria insuportável
se copos fossem inquebráveis.
todos já feitos,
nos restando deles só sorver.
//
beber num já feito,
e nos engasgar
de coisas já ditas,
e não daquele
silencio,
que em cada copo vazio,
aguarda ser servido.
/ /
~ Well