estranhas violetas 🌺

POEMA - Confissão em poesia insone

aqui, cometo crimes:

introduzo pausas, silêncios,

ali,

aqui,

acolá,

mais aqui do que antes,

um daqui mais fundo,

um adormecer,

um sono.

/

tantos poucos aqui,

e eles que fazem o tempo.

saturação de poucas coisas,

irrelevâncias que incham os segundos,

os minutos,

as horas,

os dias. incham a mim,

/

o único.

/

absoluta consciência:

insônia,

o tempo dói no cérebro,

sinto os neurônios pressionados pra cima,

tentando arrancar-me ao instante da lama,

pelos meus próprios cabelos.

não consigo acaricia-los,

fazer carinho sem minha mão,

e sem movimento, quieto, em passividade.

quero a outra mão,

uma outra que não a minha.

quero quebrar a quiralidade de meu toque.

acordar dessa minha insônia: em sono profundo.

/

queria o eros da minha vizinha,

ou ser dono do silêncio entre os elogios

da minha amiga distante,

a que deitei com desejo, mas sem o confessar;

e que adormeci ao seu lado em uma inocência solipsista.

/

meus crimes eu os cometo em silêncio,

sendo o juiz, júri, testemunha, réu e vítima.

cumpro minha pena no eterno silêncio da minha ausência,

e inação.

ausência de mundo, e de todos.

um espectro do meu nome, sem significado.

a todos comum, e a mim, estranho.

sou incapaz de confessar, e mudo permaneço.

sou escritor porque sou mudo,

não falo a ninguém,

e só alguns me falam,

mas, me falam de longe.

/

nunca ninguém esteve perto de verdade,

e ninguém na Terra me viu nu.

há certas roupas que demoram anos para serem despidas.

e essas, eu não tirei a ninguém,

e na verdade,

o espelho ainda me mostra coisas desconhecidas,

cantos estranhos, palavras tortas,

e sumiços.

os desejados sumiços.

/

não quero morrer, mas quero ir longe.

ir longe para o deserto mais próximo.

ir tão longe, para desconhecer, antes do desconhecido.

busco o desconhecer daquilo que não se pode dar-se dessa forma.

por isso não quero mais palavra alguma;

procuro o puro silenciar,

esse que encontro no sono que nunca vem,

e que brota em relance na minha mais profunda ansiedade.

/

ao mesmo tempo que quero lonjuras,

quero aquele beijo não confessado,

quero uma solidão próxima, inerente.

uma solidão que só se pode sentir junto.

porque só assim é possível guardar alguma coisa:

é preciso sempre ter um segredo para confessar,

e é sempre preciso confessar, para de fato,

poder amar.

//

~ Well

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