POEMA - Confissão em poesia insone
aqui, cometo crimes:
introduzo pausas, silêncios,
ali,
aqui,
acolá,
mais aqui do que antes,
um daqui mais fundo,
um adormecer,
um sono.
/
tantos poucos aqui,
e eles que fazem o tempo.
saturação de poucas coisas,
irrelevâncias que incham os segundos,
os minutos,
as horas,
os dias. incham a mim,
/
o único.
/
absoluta consciência:
insônia,
o tempo dói no cérebro,
sinto os neurônios pressionados pra cima,
tentando arrancar-me ao instante da lama,
pelos meus próprios cabelos.
não consigo acaricia-los,
fazer carinho sem minha mão,
e sem movimento, quieto, em passividade.
quero a outra mão,
uma outra que não a minha.
quero quebrar a quiralidade de meu toque.
acordar dessa minha insônia: em sono profundo.
/
queria o eros da minha vizinha,
ou ser dono do silêncio entre os elogios
da minha amiga distante,
a que deitei com desejo, mas sem o confessar;
e que adormeci ao seu lado em uma inocência solipsista.
/
meus crimes eu os cometo em silêncio,
sendo o juiz, júri, testemunha, réu e vÃtima.
cumpro minha pena no eterno silêncio da minha ausência,
e inação.
ausência de mundo, e de todos.
um espectro do meu nome, sem significado.
a todos comum, e a mim, estranho.
sou incapaz de confessar, e mudo permaneço.
sou escritor porque sou mudo,
não falo a ninguém,
e só alguns me falam,
mas, me falam de longe.
/
nunca ninguém esteve perto de verdade,
e ninguém na Terra me viu nu.
há certas roupas que demoram anos para serem despidas.
e essas, eu não tirei a ninguém,
e na verdade,
o espelho ainda me mostra coisas desconhecidas,
cantos estranhos, palavras tortas,
e sumiços.
os desejados sumiços.
/
não quero morrer, mas quero ir longe.
ir longe para o deserto mais próximo.
ir tão longe, para desconhecer, antes do desconhecido.
busco o desconhecer daquilo que não se pode dar-se dessa forma.
por isso não quero mais palavra alguma;
procuro o puro silenciar,
esse que encontro no sono que nunca vem,
e que brota em relance na minha mais profunda ansiedade.
/
ao mesmo tempo que quero lonjuras,
quero aquele beijo não confessado,
quero uma solidão próxima, inerente.
uma solidão que só se pode sentir junto.
porque só assim é possÃvel guardar alguma coisa:
é preciso sempre ter um segredo para confessar,
e é sempre preciso confessar, para de fato,
poder amar.
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~ Well