Os vizinhos de um choro
A inconveniência de um choro é sentido na garganta daqueles que o ouvem, porque se sabe que quem chora não conseguiu mais segurar. No momento a resposta parece não habitar na palavra. Mas é justamente nela onde primeiro tentamos agarrá-la, é nessa mesma garganta que se vê incerta, hesitante, e que está evacuada de palavras que o gaguejo se instaura, como um balbucio, uma busca no momentâneo que já está destinado a falha. Procuramos algo a dar, mas não temos mais nada. O que sai é falsificado pelo pneuma da própria voz, pela torção da lÃngua, pelo vibrato. Tudo isso antes da palavra ouvida. Pois no fim ela não se ouve, a surdez se faz dita, pronunciada. Nos resta um abraço ou um toque. Estar junto, sem desvios. O consolo é dado como se inteiro. Meu corpo é passivamente entregado à quele que chora… Sou inteiramente consolo.
E o choro ainda permanece nessa vizinhança.
Na medida do choro, somos todos aqueles que o ouvimos. Sou vizinho dele, como um daqueles que não choram. Os vizinhos do choro são esses que o evitam como se fosse uma das maiores inconveniências da vida. Sempre se colocando como independentes dele. Minha face é isenta da desgraça tensa do desarranjo das lágrimas, da murchidão da expressão que se reduz à saÃda sem portas que é esse murmúrio do chorar. Não sou isso! Sou aquele que não chora, aquele que não diz, aquele que no fundo quer sair da sala onde se choram.
E mesmo assim, o choro permanece na vizinhança.
O jovem levanta da cama, e hesita. Pois ouve o lamento sem objeto, tão próximo que é difÃcil evitar. O murmúrio lhe fez demorar mais para pôr o café na xÃcara, a buscar o pão passado da geladeira, a destampar a margarina… Ele o fez ir mais longe nesse silêncio matinal, lhe fez desesperado nas pequenas circunstâncias de seu mastigar que deglutia o pão em uma cautela sem nexo, como se lhe ferisse a casca, um receio de crime sem criminoso. Como se a simples solidez das coisas fosse um crime contra a liquidez do leite ou do café, ou mesmo de uma chuva que se atira com toda força sob as poças d’água que ainda não existem. Os dentes escovados, os olhos acordados e secos, a chave no bolso, e a porta que se tranca.
E o choro ficou lá, na vizinhança.
No retorno ele está sempre esquecido, ainda não a tona. O ruÃdo do vai e vem sempre preenche essas fissuras que ele deixa, então ouvi-lo é uma tarefa tardia, dada ao tempo, que nem uma jarra de leite morna, que aos poucos esfria em cima do fogão, aguardando sem paciência uma colher de mel, e uma caneca branca. Mas o silêncio traz de volta o ruÃdo do chorar, que ecoa nos interstÃcios residenciais daquele conjunto de prédios. Alguém lá lamenta, alguém que desconheço, que não sei a face, mas escuto a sinceridade de seu desabafo, ecoado sozinho, porém acompanhado de nosso mútuo anonimato.
E lá ele fica, ainda vizinho.
Quem chora é aquele que já se perdeu. Aquele que se esparramou como o copo dágua em cima dessa mesa em minha frente. Quem chora se vai como as águas da chuva, que desaparecem misteriosamente, se organizam em nuvens, e se atiram de contra as casas, carros, portas e janelas. Se atiram com a força de que querem ser bebidas da mesma maneira que vertidas. A água desespera-se, tanto para pertencer e ser tomada, quanto para se derramar e molhar. Ela transita, ela é o trânsito, e o choro é a sua maneira de ser em nós. O choro é uma poça para dentro. Chorar é ter um mar tempestuoso nos pulmões, e sua tsunami rompe com a mesura, e com o tecido de minha roupa. Ele vai para dentro indo para fora. É tão interna a direção do choro que ele rasga o centro e se escorre para o exterior, procurando o lugar mais baixo sempre, procurando a terra para se acomodar, para irrigar uma planta ou matar a sede do sedento.
E o choro?
Se dorme, e se esquece de que se chora. Esquece-se de que o choro é da mesma água de que se bebe, e da mesma água que se chove. E o sal dessas lágrimas sendo feitas de pequenas camadas destiladas daquela dor que é perdida em sais, minerais, proteÃnas, talvez não seja suficiente para o lamento desse que chora, até não chorar mais. Talvez a composição quÃmica das lágrimas não seja do tamanho da dor e do lamento daquilo que elas liberam como negação, e por isso que elas são salgadas e não doces.
E agora não mais se ouve.
Não se chora. Esse que aqui jaz, não chora. A chuva não caÃ, e o frio resseca as plantas, mesmo no calor do sol. Esse que agora é branco, e não aquece. Ele não aquece porque não há o que aquecer: não há gota para ser sorvida quente e nem para ser bebida morna. Não há chaleira no fogo, não há lágrima congelada. Não se beija, e não se bebe. Morre-se de sede. Aquele que não chora, jaz desértico. Mas de um deserto sem miragens, pois é a umidade que dá forma ao desejo, e ela está ausente. Há silencio sem expectativa, e ninguém lamenta. Ninguém consola. A fatalidade é sólida que nem a pedra e o grão de areia. Há uma resignação ontológica nessa plenitude e na ausência desse choro, de uma náusea sem vomito, sem adiamento, sem ter algo na barriga para cuspir e aliviar. Uma acidez no estômago sem possibilidade de alÃvio, pois não se tem estômago, e não se tem comida.
Sem choro.
Quem chora, ao fim, tem a dádiva de não ter aguentado. E ergue-se como santo diante daqueles que ainda seguram, aqueles que nem sabem do que chorar, nem sabendo se deveriam deixar essas coisas caÃrem dessa forma, como a esse que não aguentou. O santo que chora lembra com a liturgia do desarranjo a todos à queles que não entendem a oração derradeira de uma lágrima escorrida, do aperto agudo das entranhas, e da evasão soprada pelo desabafo. Cada animal, chora a sua maneira. E o homem, escolhe chorar sozinho, como se não chorasse. Não só chora, mas envergonha-se do chorar. Criatura contraÃda. Chora em forma de desertos em cantos quietos e solitários para não dar ao mundo a oportunidade de lhe consolar.
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~ Well