estranhas violetas 🌺

O despropósito de uma porta

Crônica sobre passagens esquecidas

Falarei sobre aquela porta.

O significado de uma porta é vasto. Quando se fala da porta como todas as portas, se fala pouco mas ao mesmo tempo se fala de muitas. E aqui eu quero falar de algo diferente. Falarei só daquela. Aqui as coisas são simples. A porta é de madeira marrom e tem aquelas tonalidades peculiares brutas: um gradiente que vai do claro ao escuro em espirais. Há formas, há pareidolia. Havia um olho. E ainda há. A porta é material, existe. Não há metáfora.

A porta foi Júpiter, em minhas analogias de infância, mesmo não havendo metáfora.

Apesar de sua brutalidade em tons e gradientes, os quais nos lembram de seu passado árvore, ela era ornamentada; na verdade esculpida, muito provavelmente por um carpinteiro experiente, que traçou diversas curvas e declives uniformes que demarcavam a presença humana naquela madeira. Era simétrica e bela, e nenhum dos retângulos eram meros retângulos: seus ângulos eram floreados e tortos, tortos mas simétricos. Uma peça viva.

Foi a porta que demarcou meu amadurecimento. Aquela porta.

Para onde ela levava, não interessa. Mas ela em si mesma é o que importa. Ela era grande, grossa e imponente. Seu barulho era bruto e determinado. Por causa disso sua maçaneta não era boa. Para abri-la era preciso não só girar a maçaneta redonda, mas também calçá-la pra frente, e fazer uma pequena força adiante. Aí ela abria, em seu bruto ranger. Definitivamente não era de toda prática, o que retirava um pouco de seu propósito. Mas talvez justamente por isso eu lembre daquela porta com tanta clareza: por esse pequeno descompasso no seu propósito.

Quando eu era criança, eu não conseguia abrir ela. Forçava a maçaneta e ela se recusava a abrir. Como se ela em sua imponência estivesse me impedindo como uma mãe que proíbe o filho de adentrar um quarto terrível. Talvez ela fosse a égide protetiva que me prendia e me frustrava na minha falta de tamanho e me impedia de ir ao mundo. É o que me retirava o prazer do risco, e me colocava de volta sentado no chão, encarando o solipsismo de minha maior chaga: a de não ter machucados.

Eu não entrava, e eu não ia. Eu ficava lá. Entre parquets, porque o chão era o destino mais conveniente pra mim, pois eu era pequeno. Conheço melhor o chão daquela casa do que seu teto, e a porta era o grande monólito entre o teto e o chão.

As vezes meu tédio e solidão me faziam ir ao País das Maravilhas.

Eu deitava minha cabeça no chão e olhava minuciosamente embaixo dos móveis. Uma espécie de reino subterrâneo se abria para mim. E é peculiar como uma criança consegue encarar as coisas sob uma escala diminuta, isso acabava criando vales e canyons nos lugares mais mundanos de um adulto… Cheiro de feijão, e chiado de uma panela de pressão. A TV eterna, em seu neon próprio, sempre ligada, como uma presença/ausência. E a porta. O chão, o subterrâneo da cômoda e do sofá. Uma pequena vida imóvel, sentada, em 3 cômodos. E a porta.

E é curioso, mas a porta hoje também não abre. Atualmente, não consigo abri-la. Mas as razões são diferentes. Hoje, ela está cimentada: não vai mais abrir. Se tornou uma relíquia imóvel, completamente sem propósito.

Seu absoluto desproposito me fez ouvir o silêncio com mais detalhe naquela tarde solitária; naquele mero momento de solidão. O em torno como um todo estava diferente, as pessoas estavam diferentes. Todas elas. E eu… estava ali. Incerto se estava diferente ou não, se tinha ido a algum lugar ou não. Olho para o chão, aquele em que estive quase que inerentemente unido durante uns bons anos de minha infância e começo acreditar que ainda estou ali, e a porta não vai me levar a nenhum lugar, ela nunca vai me levar. Eu sempre estou atrás dela, o portal não faz sentido, a maçaneta tem engrenagens que nunca mais vão girar e ela tem uma chave que tranca aquilo que nunca vai se abrir. Não há lugar, e tenho medo de dizer que nunca houve…

Porém, por muito tempo eu a abria sem dificuldades.

E justamente durante esse período, eu não percebia. Essa vitória não me pertencia. Ela era de minha infância, daquele eu pequeno que via o mundo de longe, em sua verticalidade. Talvez essa será uma vitória que só visualizarei em um breve oásis que haverá daqui uns anos, onde estarei atrás de outra porta, esperando por uma pessoa que está rumando para outro lugar. Ali na minha adolescência ela se abria com uma facilidade tremenda. Mas eu estava preocupado ainda em sair de lá de outra forma, como se fugindo dos parquets e do pó. Eu quase minto falando isso, na verdade, pois fui mais levado a sair de lá do que de fato girei a maçaneta. Mas no fim é bom saber que fui.

E provavelmente essa vitória só vá ressurgir quando eu estiver velho, já demente e degenerado pelo Alzheimer. E ela surgirá em uma breve epifania, rápida e evanescente. Nisso, vou encarar a enfermeira do asilo e vou falar:

— Eu abri a porta! — Em um sorriso sincero.

E ali nem ela e nem eu vamos perceber o quão significativo isso foi. E aí se morre, sem perceber-se direito até onde se pôde ir.

/ /

~ Well

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