estranhas violetas 🌺

Estou ali entre a cadeira e a mesa

Há distância quando não há ninguém para medi-la?

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As coisas estão aqui, de alguma maneira. Esparramadas, caídas, e derrubadas. Não há lembrança alguma, e encaro-as como se fosse a primeira vez que as enxergasse. Me surpreendem por serem gratuitas, penderem sem graça nenhuma, e restarem lá pois não importa onde restam de verdade; não importa para esse que caminha nessa casa.

Os cantos ali não existem, as bordas todas são arredondadas. Nada se choca, e esse que passa leva as coisas sempre para as margens, para esses cantos inexistentes, enquanto perambula. Onde não há pó é onde habita. Onde tenta habitar, pois boa parte do tempo, ele não sabe que vive, pensa ou caga. Ele vive tudo aquilo que lhe aparece de longe, nessa janela extensa e infinita, cheia de pêndulos, desilusões e ecos. Ecos cacofônicos que ninguém ouve direito o que está sendo gritado, e por vezes, não há nada articulado de verdade, é só grito, e gemido, sem muita coisa além disso. Gritos abstratos. E ali sucumbe ao abstrato no meio da insônia.

Há algo de amnésico nessa solidão narcótica. As coisas não são nem liquidas e nem sólidas, mas sim vaporosas. O duro assusta, repele, acorda aquele do pouco sono que ele têm. E lhe impõe essa vigília absoluta, que mesmo no sonho se mantém ali, entre parênteses, quieta, latente. Ela se estende por todos os espaços pequenos forjados no miolo dessa casa. E a casca desta fruta oca lhe faz entrar para mais dentro, não para buscar a semente da vida, que não há, mas só para se diluir na polpa dessa residência pendurada numa árvore-prédio. Pendente, como pendência. Como o aluguel do mês que vem. Que se paga enquanto se espera um amadurecimento que apenas vai condena-lo a cair no chão com mais força, assim apodrecendo mais rápido.

A bandeja que serve minha subjetividade é mais funda que ela.

Já disse numa sentença tola o quanto essa quiralidade quase cartesiana me afeta como uma doença. Eu queria ser o bagaço da fruta que eu atiro contra o muro com força e que se desfaz em inúmeras sementes e restos de polpa doce. E é preciso que ela seja adocicada, pois não quero o amargor como o adubo dessas tantas sementes, que já não serão mais minhas. Tenho medo de deixar de herança algo que não seja doce.

Mas eis-me, não ele. E o que há nesse oco?

Um terreno baldio de caminhos curtos e lonjuras quietas. Um beco. É o que resta de um passado de sentenças nervosas, e sempre intermináveis que um dia foram prenhes de uma temporalidade densa do presente de um toque, que fazia carícia na eternidade de nossos horizontes, mas que acabou apenas se tornando um espaço vazio. E do dono daquele sussurro enquadrado por uma centrifugação em uma sala entardecida só restou a memória apodrecida de um esquecimento: uma caricatura de um sujeito, de um dia, de um algo entre meses, semanas, dias ou horas daquele resto de tempo.

Memórias parcialmente esquecidas que se vomitam para fora que nem aqueles silêncios úmidos que existem em algumas cenas dos filmes de Tarkovski, onde o caminhar daquele personagem ecoa em distâncias que extravasam o quadro, só restando essa lacuna ecoada como a marcação de uma distância. Talvez sejam essas lacunas inteiras que tornam significativo cada um dos nossos abortos enterrados, e sufocados.

O que custa essa reticência onde aquilo tudo foi enterrado?

Não há verbo possível para a nossa carne, não mais. Nunca. O muro do impossível agora não é mais o concreto na minha frente, mas o não de minha alma. Uma negação perversa que se derrama pelas minhas linhas, pelas minhas fugas, pelas portas que fecho e por todos os silêncios corrompidos que sustento. Eu nunca fiz tanto barulho nesses meus silêncios, como agora. O verbo é o vazio, e não mais a aspereza de meu sussurro que tenta te encontrar no meio da floresta da transparência. O nosso dizer agora é uma negação do contato, do chamado, da oração. Não atendo mais a ti, nem ele, e nem Deus. Eu perdi a mim mesmo entre as coisas poucas que me cercam, sempre em perigo. E não há resgate possível para um suicida que é incapaz de se matar.

Não estou nem aí.

Essa sentença as vezes implica a brusquidão de uma usurpação da presença, mas tem vezes que ela só é uma atestação quieta. Não me retiro em violência desse lugar nenhum em que habito, pois nunca quis me colocar em lugar algum. Não estou.

Assim sem pés nem mãos, sem peito ou coração, sou só uma cabeça sem densidade e transparente; o espectro de uma sala vazia sem muitas coisas, sou um sussurro que tenta dizer:

Estou ali entre a cadeira e a mesa. Mas no fim, nem lá estou.

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~ Well

#crônicas