Esboços de intimidade
Episódios de quem não amei
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Preâmbulo
Não é necessário tempo, ou espaço. As vezes meio segundo, dois passos. Meio metro, ou uma rua. Há tanto que é perto. Por vezes vem rápido, preenche, e nos surpreendemos. A surpresa é tardia, pois na hora, relevamos. Ignoramos propriamente. Relapsos idealistas. Epifanias. Poesia romântica de meio segundo. Breve lampejo de furor. Um e se…, que logo se vai pois o carro deu seta. Depois o esquecimento… O eterno e fadado esquecimento. Aquele que quando buscamos não vêm e quando menos percebemos nos assoma, ao ponto de esquecermos aquele aniversário ou a chave em cima da mesa. Se controlássemos o que esquecêssemos nunca esquecerÃamos de verdade. E que coisa terrÃvel essa, a de não esquecer de que se lembra… É sobre isso o logo mais: pequenas fissuras abertas por um e se que não é restrito nem nas meras possibilidade materiais ou probabilÃsticas, porém, sem dúvida alguma, ainda existente. Isso são resquÃcios do ralo de experiências que o esquecimento representa para nós, são rejeitos mal escoados. Pedaços inertes que brilham como diamante.
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I. Confidência
Lembra aquela vez no ônibus? Claro que não, eu sei. Estávamos meio que perdidos ali, naufragados em direção ao futuro onde nos impeliam. Você tinha um namorado que estava ao seu lado, ele era um cara muito legal. Mas mesmo assim acabamos por gravitar um no outro. Nos sequestrávamos a cada segundo quando Ãamos para aquele lado logo ali, vizinho do burburinho do em torno e lá a gente fazia aquelas confidências estranhas, aquelas que não são Ãntimas mas são profundas, como o que esperamos dos outros, sobre o que achamos da chuva e como o crepúsculo amarelado daquele dia nos fez nostálgicos a despeito de isso ainda não ser uma memória. Agora é. Eu não te amei aquele dia, e a gente nunca mais se viu. Não havia número para ser trocado e nem um “até mais" aconteceu. Apenas fomos embora como se não pertencêssemos a vida um do outro, sabendo que nunca mais nos encontrarÃamos. Fomos próximos, mas minha pele e a sua nem se esbarraram. Fomos esgotáveis completamente naquele momento. Fomos suficientes na mera expectativa (absurda) de que poderÃamos nos amar profundamente. É a isso que dedico essa folha de papel, a qual será amassada logo mais.
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II. Convergência
Guerra dos Mundos do H.G. Wells estava na minha mão aquele dia. Você repentinamente se aproximou, tirou-o de minha mão e disse:
— Já li esse. TerrÃvel pensar em como as pessoas podem ser vaporizadas por um raio de calor.
— Sim. Deve ter sido um horror na época.
— Orson Welles fez parecer mesmo.
Eu sorri. Os espaços vazios foram preenchidos. É pouco mas foi curioso, uma aproximação repentina e rápida demais que foi lá naquele núcleo arranjado de nós mesmos onde a coincidência de meu eu encontrou aquele você, reatando uma espécie de conversa que nunca tivemos. A coisa explodiu rápido naquele instante entre prateleiras de inox daquela escola estadual.
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III. A transitoriedade do transporte
As pessoas sempre escolhem assentos solitários, se possÃvel. A ideia de uma aproximação gratuita, mesmo que em silêncio é indecoroso. É uma verdade tácita de nosso perambular. É preciso de intimidade para se estar presente em silêncio. A companhia silenciosa é sempre desconfortável. Imagina alguém sentar ao meu lado em um ônibus vazio? E mesmo assim, não fazer nada? Só sentar ali perto, pelo simples fato de estar perto. Sem intenções secretas ou sussurros, apenas residir silenciosamente ao meu lado. Perto para que sua presença não seja soterrada por expectações ou ansiedades de um futuro sempre longe, mas ali, na vizinhança de nossa ansiedade. Sempre nossa essa ansiedade, nunca deles, esses outros que seguram nas barras amareladas de ferro, e que esticam a pélvis para as senhoras passarem ou para não encostarem indevidamente na bunda de alguma outra pessoa. Deles são os olhos distantes encarando o nada, ou procurando fotos/linhas/textos em uma tela sombria enquanto estão espremidos. Todos transitamos juntos, mas mesmo assim apenas nos encostamos pela inconveniência do aperto…
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IV. Divergência
Sentei-me ao lado da janela embaçada de umidade. A cidade distorcia-se enquanto o ônibus passava pelas poças, e o chiado constante fazia a gente se perder; não saber onde se estaria. Eu também estava de pé e era uma tarde de temperatura agradável e seca. As coisas são duas. Mas ambos éramos os mesmos, e ambos eventos estão por cima um do outro. O que faz isso é o meu olhar de encontro ao teu. Vemo-nos duplos, antes de pé, agora sentados, seu cabelo úmido, o meu atado. Você lá, eu cá. Ele pende e balança pelos trancos e freadas, e eu ali, ziguezagueando. Eram relances simples, rápidos, respectivos e brevemente mútuos. Eram presentes o suficiente para preencher aquele limiar peculiar que era o das certezas. Mas aquela última vez, na última daquelas duas vezes… Eu te sorri despropositadamente meio sem saber, e você me sorriu de volta. Aà você desceu e nunca mais te vi. E nunca mais peguei aquela linha de ônibus.
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V. Verdades que se esgotam
Eu via que ambos esgotavam-se ali, enquanto tentavam se capturar nas desconfianças e expectativas. Não ficaria surpreso se de suas bocas viessem verdades esgotáveis. Conheci as verdades esgotáveis da boca de dois ex-namorados que me encaravam numa manhã morna. Eles me disseram:
— Nada dura, nem relacionamentos, nem amores, nem amizades. As coisas esgotam, as pessoas esgotam. — disseram em unÃssono.
Essa é a verdade esgotável. Se morre e se vive porque se morre, e deu. Esgotam-se as latas de refrigerantes, a bateria dos telefones, as pilhas do controle remoto e as pessoas. A pessoalidade da pessoa é o esgotamento, aquilo que vai até um ponto e não dá mais. Como sermos na saturação? Sendo saturados.
Ela traiu ele sem saber que ele já havia traÃdo ela. Ambos concordaram que estavam enjoados e foram embora um do outro, como se um abrisse a porta dos fundos e o outro a da frente e partissem, deixando aquela casa tosca que eram eles para trás. O que é uma casa se nada nasce dentro dela? Uma caixa.
Que pena.
Finjo que penso, porque não sinto nada por eles. Aprecio o abismo incomunicável entre eles para anotar tudo isso aqui. Porém, é sem dúvida tenebroso que isso seja verdade. E talvez a verdade seja tenebrosa mesmo. Talvez a gente seja pouco. Talvez o sendo das coisas vá criar uma situação em que nós vamos ser cuspidos para fora sem nem percebermos. Uma hora dessas vamos criar um robô que vai imitar nossas sinapses de maneira autônoma e vamos crer que nossa consciência foi enviada para ele. E assim, nos suicidaremos crentes de que somos esse outro, de circuito, cobre, plástico, e um’s, zeros. E aà a gente morreu, e só.
Mas a gente ainda sente medo disso, e talvez sentindo muito medo sejamos um algo mais que esse só. Mas sei lá. A vida deve ser só umas quatro coisas, e essas quatro são impossÃveis de serem ditas. Mas não sei quais são, e ninguém também, mas que são mais ou menos que quatro com certeza são, senão para que haveriam números?
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VI. Vento na noite
Caminhamos como se em silêncio, mas não estávamos. Era quente e o vento forte. O chiado das árvores era a noite e engrossava entre nós aquele elo estranho. Perambulamos pelas réstias daquele lugar tão movimentado no dia, mas que na noite era um corpo sem ossos. Ali na liminariedade dos rebocos descascando, na aspereza do concreto e numa fotografia de um container de lixo (que me fez escrever uma poesia parca na tarde sozinha do dia seguinte) ali brincávamos de futuro, mas em silêncio; Ãamos lá sem objeto como se para lugar nenhum, sem saber que isso era a mais crua verdade daquela noite.
Eu olhava para ti como uma casa, e sentia teu toque gelado como necessário ao quente de minhas mãos. O paradoxo de uma casa sem teto é o vento, que faz desse arrepio a revelação de tua carÃcia como prenúncio de chuva. E você me olhava ali com mais silêncio, e se esteve próxima, foi dessa vez; tal qual a chuva, que não veio.
Ao sentar-me no banco na parada de ônibus, esse que era tão acostumado a receber a impaciência de uma espera, é que você veio em minha direção como se fosse entrar em mim, e talvez tenha mesmo. Ali, no breve momento daquela situação, eu tinha entendido.
Naquela noite eu aprendi que mesmo o amor pode ser desperdiçado na espera de um ônibus que nunca existiu.
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~Well