estranhas violetas 🌺

CONTO - Uma simples prosa sobre um pássaro morto

A peste brota da putrefação da esperança

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Traçar aquele pequeno caminho entre os extremos de teus lábios é talvez a coisa que mais me fez fugir de casa aquele dia, simplesmente porque você nunca mais estaria ali.

Nesse dia, ou noite, eu vi o vento quebrar o balanço das folhas de um carvalho como o acaso rompeu com nossas falsas fugas e desesperos. Aqui há muita confusão nas monções, as montanhas são estranhas, o ozônio é escasso, e o sol é penetrante. Por causa disso as pessoas aqui são nervosas e inconstantes. São todas ariscas, perdidas e apressadas. Todo mundo em constante vibração e atrito, e aos poucos se desfazendo entre si.

Eu vi tudo isso a tarde, mas não era mais tarde. Já era tarde demais.

A rua que delimitava o veio central daquele fluxo perdido e estridente passava em paralelo ao beco em que eu morava. Sei que nunca é tão sozinho, e há no mínimo dez pessoas diferentes aonde moro, mas todas elas não se compreendem, e muitas nem tentam. Isso tem sua beleza, e também uma solidão. Complementam-se.

Aqui devia ser bonito, mas não é. Não se consegue. A cidade em si não se deixa respirar, se esforça enquanto tal para dar conta e assim se degenera aos poucos, não tendo tempo para tratar de sua beleza, e assim acaba-se com marcas de expressão e rugas.

Sigo esse beco, ou buraco sombrio, olhando para os grãos de pão e o rastro de tabaco, ou aquilo que pretensamente chamam de tabaco. Eu já chamo de suicídio dos covardes.

Sempre que eu sinto ele queimando eu lembro de quando eu colocava o cigarro na boca e você me olhava em desafio, sempre me fuzilando com suas pupilas inconstantes e sua íris castanha. Você me chamava para um duelo de esgrima.

Ando fumando cigarros mais fortes ultimamente, daqueles mais mortais.

Mas nós duelávamos bem, tínhamos uma sincronia de uma batalha que a gente não queria que acabasse. Era um duelo sem vencedor, pois ali ninguém queria vencer, queríamos eternamente duelar. E era disso que nossa dança era composta… De um duelo.

Estava calor mas também estava úmido, e um poste de luz fazia uma poça de água parecer hidromel. Cato meu quinto isqueiro, esse laranja, do qual me lembrei felizmente de trazer, pois não quero o sexto. Acendo o cigarro. Aquilo entra como combustão e como asfixia. Um gole profundo. Uma gangrena evaporada. Um tragar de desafio, um limiar de potência, ou mesmo de desistência. Mas de que diferença faz? Nessa cidade o abismo corre em tua direção, e não você na dele.

Eu já ouvia o bater de asas pesadas do fim. Era-se tempo disso, já era. As cores mais vivas agora eram os tons mais estúpidos erguidos ao céu em uma flâmula, roubada para símbolo de idiotia e bordada de orgulho com lençóis de bordéis. Daqueles que os turistas vão, tá ligado? Turistas eternos.

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Se eu tive que sair de casa porque um câncer nasceu nela só foi para encontrar a peste negra no resto da vizinhança.

Minha boca ressecava aos poucos, e um vento úmido batia em minha face. As árvores iam compondo uma valsa de ruídos enquanto eu caminhava, seus galhos e folhas como chocalhos frenéticos e violoncelos de um réquiem eterno. Tudo aquilo se misturava com o bater de asas daquela criatura imensa.

Fazia meses que ela havia sentado na borda do morro que circunda a cidade. Mas eu e mais alguns sabíamos que ela na verdade era apenas um representante de algo muito maior.

Percebe-la não foi tão evidente, apesar de sua magnitude. E inclusive teorizamos que ela esteve ali por pelo menos uns cinco anos, sem ser notada por ninguém de fato. Pelo que meu amigo Jonas me contou, o primeiro a de fato perceber foi um mendigo chamado Ronaldo. Ele berrou por um ano inteiro:

— Vocês não estão percebendo!? Olhem para os morros! Olhem para os morros! Estamos condenados!

Mas ninguém nunca levou a sério Ronaldo.

Assim, ninguém sabe quem deu ouvidos a Ronaldo e quem espalhou esse boato, ou melhor, quem apontou o dedo para o morro e fez-se ver que de fato havia um gigantesco abutre no horizonte.

Ronaldo tomou sua cicuta sabendo o que estava por vir.

Há alguns meses isso chegou a mim e a alguns de meus conhecidos, e assim pude ver aquilo que já estava bem diante de meus olhos. Tentei convencer alguns conhecidos para olharem para o horizonte e verem o gigantesco pássaro que se desenhava ao longe. Mas todos dissimulavam e falavam “Nah, você tá vendo coisa. É só um passarinho e uma nuvem de chuva, logo ele voa para longe e a chuva cai forte e rápido”. Nós sabíamos que não era um simples pardal no horizonte. E sabíamos muito bem que a escuridão da tempestade não seria tão passageira quanto ele preconizou.

Era só olhar diretamente para o abutre, e você iria saber que de fato grande parte das coisas já estavam perdidas.

Mas agora você me desafia?

Vejo na esquina do beco debaixo de um poste: um pássaro parcialmente morto. Ele respirava com dificuldade.

Procurei em volta um ninho, mas não encontrei. Talvez ele não tenha encontrado também.

Deixei ele lá e fui-me.

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~ Well

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