estranhas violetas 🌺

CONTO - Uma carta em um banco

(segue-se o conteúdo completamente transcrito com algumas partes recuperadas)

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caso você esteja lendo isso é porque provavelmente eu tive coragem de me despedir de frente a você. provavelmente no momento eu gelei minhas pernas e tremi inteiro, mesmo que você não tenha percebido. devo ter falado meias palavras que provavelmente não vou lembrar, porque sou tenso, ansioso, míope e as vezes sozinho. as vezes.

devo ter corrido com meus olhos pelos cantos de suas costas para evitar a profundidade dos seus. devo ter notado uma cena ao fundo de maneira indigente, pois mesmo que eu queira me desviar do adeus minha mente insiste em pairar no entre o ir de encontro ou me colocar em fuga. mas percebe que eu não sei? eu digo isso em ansiedade agora, de frente a esse papel em branco que guarda a obrigação das últimas palavras, pois eu sei que somos assim, eternas últimas palavras.

odeio isso mais que tudo. mas sei que não por muito tempo.

sei que depois vai haver um grande silêncio, e que tudo vai se seguir de maneira bastante fluida, porque é assim que as coisas andam. ou pelo menos queremos manter dessa forma. sei que é difícil lidar com coisas duras ou pesadas, mesmo que talvez elas tenham mais peso e significado do que as práticas e convenientes. [mastigar um vegetal bem cozido é diferente de morder uma maçã].

você deve se questionar do porque escolhi te escrever do que te dizer. e eu te respondo aqui: é que quando falo é muito fácil eu me perder, ou mesmo tornar aquele diálogo algo eterno, e não perceber a efemeridade do nosso momento.

ultimamente ando percebendo o motivo pelo qual as pessoas se machucam demais. (pelo menos no sentido com o qual eu acho que nos unimos, apesar de saber que talvez eu nunca ouça de sua boca).

as pessoas só sabem sentir as coisas sob a perspectiva da eternidade. percebe que se eu te amo, eu te amo aqui e agora, e daqui e agora para o indefinido? essa indeterminação cria esse movimento centrífugo em direção ao futuro. sei que te amo, mas não sei quando isso irá acabar (porque enquanto sinto, não quero que acabe, pois senão não sentiria completamente).

e essa aceitação é o que machuca as pessoas. elas não conseguem ver o horizonte. e percebo que isso se inscreve no núcleo do sentimento, naquele lado animal que tá lá dentro, naquele que ignora causas e hipóteses… porque só assim funcionaríamos em completa imanência.

pensa como seria se sempre tivéssemos em mente que qualquer afeto nosso é transitório…

(aquele papo de que se a abelha refletisse ela não iria mais polinizar)

a gente sabia desse horizonte.

mas então será que sentimos? será que sentimos as coisas de forma indefinida? posso dizer a partir de minha dor que sim… pelo menos daqui de meu peito para dentro sim, mas a partir de seus olhos para dentro, eu não sei. não posso saber.

e afinal, muito bem sabemos que só nos unimos em nossa incompreensão… (palavra ilegível).

mas é aí que importa, é aí que se encontra as coisas verdadeiras: nessa ambiguidade. na aceitação dessa ambiguidade.

a gente briga contra a nossa vontade de nos tornarmos um, para que assim possamos manter nossa unidade. [é engraçado como algo tão afetuoso como o amor é também motivo de tanta violência].

(desculpe pela minha tendência em falar em universais, e também de fazer de tudo psicologia… me desculpe).

saiba que apesar das coisas acontecerem, eu nunca quis te machucar.

as vezes as palavras precisam ser usadas de maneira mais simples e localizadas, e isso é meu defeito. sempre é tendência, e nunca contingência. e a gente sempre precisa de um pouquinho de contingência né? senão seríamos apenas ervas daninhas sendo pisadas pela entropia… e não somos apenas isso né? né?

(parágrafo inteiramente borrado por algo liquido).

saiba que eu te arranquei dos universais no exato segundo que te vi aquela vez. saiba que eu nunca te perdi de vista, e isso não é necessariamente saudável para mim, mas é que eu não escolho as minhas memórias, e muito menos o que minha imaginação faz com elas.

(trecho rasurado com uma linha):

[sua contingência é os seus poros e seus pelos arrepiados, é seu cheiro perdido no meio dos perfumes e shampoos, é a maciez de seu cabelo enrolado, é a contração de seu beiço, o traço de seu nariz, é o repousar de seus olhos curiosos vendo alguma imperfeição em minha face. são suas mãos sensíveis e pequenas. é tanta coisa. é, sei lá. você.]

mas sei que não estamos aqui para permanecermos, até porque não há nada na verdade que esteja aí para isso. até a montanha mais bela é arrastada e erodida aos poucos pelo vento.

e atomicamente a gente nunca se tocou na verdade… (nossos vazios se tocam, apenas esses).

mas talvez aquilo que está sempre a frente de nós guiando nossas tendências seja o amalgama de nossos toques… sempre nos unimos na vontade que nos impele a nos chocar.

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viu que esses longos trechos apresentaram uma dificuldade imensa de falar de nós mesmos de fato?

falar em palavras retas e objetivas aquilo que no fim não consegui te dizer?

nem aqui eu consigo.

espero conseguir ir te ver pelo menos, te encarar nos olhos, lhe estender um braço (ou um ombro) para caminharmos em direção a plataforma de partida, e aí te ver aos poucos diminuindo em um corredor em forma de ralo, e aos poucos te ver cada vez mais ao longe, borrando-se, e tudo ao me redor sendo invadido por uma imensa tromba d’água que cai de todos os cantos, e logo logo perceber que me encontro afogado e parcialmente surdo de todos ao meu redor.

se você lê essa carta, você percebe que aquilo que me obrigo a dizer aqui é impossível de ser dito. então apenas peço que lembre daquele momento em que ambos acabamos dizendo aquilo sem nenhuma palavra.

[lembra daquela noite em que sentamos no pé da escada e ouvimos o vento arrastar as folhas ressecadas das árvores? e de como nossos toques e arrepios fizeram tanto sentido naquele dia? pois lembre-se desse momento, pois é essa a palavra indecifrável que procuro escrever ou mesmo vocalizar].

e saiba que tudo foi como uma tempestade… e no fim, espero ter tido a coragem de enfrentá-la.

(duas palavras borradas e ásperas, provavelmente apagadas com uma borracha).

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(Carta sem assinatura encontrada em um banco de praça).

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~ Well

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