estranhas violetas 🌺

CONTO - Os manequins de dente de leão

“Um homem não é independente a menos que tenha a coragem de estar sozinho.” Halldór Laxness, Gente Independente

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Algo estava errado. E por aquilo ser verdade, algo estava errado. Tina passou-me os chicletes e eu percebi que aquilo era errado. Não o passar de chicletes mas ela mesma estava errada. Não toda errada na verdade, só um pouco, afinal ainda a chamava de Tina, mas creio que daqui a pouco não poderei mais fazê-lo, senão estaria cometendo um erro lógico. E isso é a última coisa que quero: um erro lógico.

Preciso esclarecer os fatos recorrentes a consulta com o Doutor Benjor. Tinha uma remela no canto do olho dele que me incomodou toda a consulta, e lá eu fiquei parcialmente encarando-a por todo o momento. É muito estranho, sempre tive essa dúvida acerca de como olhar para as pessoas: a íris é muito grande para ser tão específica e precisa ao definir objetivamente para aonde o indivíduo está olhando. Sinto que se encarar o meio entre os olhos de alguém, este não vai perceber.

Mas sei que a remela do Senhor Benjor me interessou mais que ele naquele dia. Não sei se é porque ele é Doutor e soa asséptico e mais branco que a sua sala de tão limpo, que a remela chamou-me a atenção. É como se Deus sentasse na esquina pra tomar um trago. Mas ele me viu de cima dos óculos com a remela pendendo no olho direito, e disse “Senhor Paulo, o senhor só bateu a têmpora, nada foi danificado”. E várias coisas fizeram menos sentido, como o fato de eu lembrar que eu havia batido o carro anteontem, e que o mecânico também me dizia: “não ficou muito danificado”. Como eu era desconfiado, e também como o mecânico havia mentido e me cobrado quinhentos reais, questionei “tem certeza?” e ele arregalou os olhos “mas é claro”. Mas isso fez sentido, e é mentira. E só é coerente por causa da remela, porque médicos não erram. E ele deveria perder o diploma, mas que blasfêmia!

Eu não chamaria de problema, mas tudo começou com o chuveiro lá de casa. Eu sempre falava pra Tina “ou eu to crescendo ou a casa ta diminuindo”. E foi e foi que um dia me virei e dei na quina donde sai água. Foi tão forte que dei um talho no lado dos olhos, que curiosamente sumiu alguns minutos antes da consulta.

Dias antes eu fui na palestra daquele epinólogo; epostólogo, ou algo do gênero, enfim, aquele cara que brinca com as conversas colocando elas em caixas e arquivando numa extensa prateleira de arquivos bem cômoda mas que de tão frouxa se é possível derruba-la com um único chute.

Eu não lembro daquilo direito e nem iria querer lembrar, eu acho. Se eu não me engano o desgraçado tava me deixando triste com aquela história maluca de incesto e trágicas mortes. Parecia até com o conto de Édipo, só que mais preciso e mais convencido, mas não menos falso, e na verdade até mais.

O epostólogo tinha uma franja violentamente simétrica e anti-natural que me deu ânsia de vômito de ficar encarando tamanha coerência franjal. Me senti envergonhado com meus botões e minhas mechas irregulares, senti que elas eram mais falsas e irreais. Aparentemente eu não tinha evidência suficiente para sustentá-las, então já estava pensando em cortá-las fora.

Ao sair triste do auditório, vejo um homem de tamanho médio no lado de fora vindo em minha direção com um grande martelo, ele parecia furioso.

“To indo lá acabar com o congresso de iludidos, aquilo já está virando um atentado a humanidade.”

Ele bateu a porta atrás de si, e ali eu percebo que tinha muitas pessoas no lado de fora, todas chorando. E o homem me pareceu mais heroico do que havia aparentado, e me ficou claro que ele ia lá quebrar as estruturas de uma prisão antes mesmo de ela ser erguida, e isso faz dele o mais herói dos heróis.

Depois disso houve alvoroço, e algo começava a ser errado.

Mas foi após aquele meu banho intranquilo que as coisas ficaram mais transparentes. Ao sair do box parcialmente vermelho por causa do sangue de minha têmpora, me vi no espelho como nunca havia me visto antes: eu era um homem de feições comuns, e não aquilo que me imaginava enquanto caminhava de tarde no mesmo dia. Ali me convêm confessar que eu soava mais patético do que me considerava, e isso feriu meus sentimentos.

Vi meu dente de leão tremendo no meu centro, ele estava completamente intacto, mas havia sofrido o seu primeiro grande choque.

Foi bem estranho. Sabe quando alguém bate uma porta distante em um casarão de madeira? E que você mesmo estando distante consegue sentir a vibração da batida? Essa sensação passou a fazer parte de todos os meus momentos a partir daquele momento. Ao encostar em uma mesa eu sentia que seu toque ecoava para dentro de mim como um barulho seco e de ranjura. Ao escorrer meu dedo pela superfície eu sentia que deixava partes de mim no lugar, e internamente eu podia sentir uma intensa vibração.

Mas o grande baque foi quando olhei para Tina. Ela parecia menos densa do que antes, mas extremamente mais complexa e enigmática. Sentia que ela havia se tornado o enigma que eu egoicamente iria batalhar minha vida inteira para decifrar. O modo como eu a via tinha mudado: Tina havia deixado de ser aquela na qual ao levantar de manhã, eu vestia com meus desejos.

Afinal, porque eu exigia que ela fosse algo que ela não era? Porque que eu fazia isso? Porque eu insistia em coloca-la em uma caixa com um furo específico cortado na frente, três furos acima para o oxigênio, e eternamente voltada a mim como deposito de qualquer coisa? O que estava acontecendo!?

E com isso percebo com um amargo na garganta que havia certa distância entre nós. Ela não estava dentro de mim como eu estava dentro dela. Eu não a permitia entrar e nem se mover dentro daquela caixa abafada… Mas agora o que impedia se perdeu no ralo da pia.

Seu segredo está ali agora, e era um dente de leão.

Toda a fisionomia de Tina havia se tornado parcialmente visível. Seu corpo havia se mostrado, e eu podia ver parte do interior dela agora, o preciso centro daquela eterna entropia que erroneamente generalizamos de pessoas. Ela estava há um passo de mim e aqui os segundos se converteram em anos. No centro de seu peito havia um delicado dente de leão que pendia de um talo completamente inconstante e inseguro, e que quando Tina se movia ele balançava de um lado a outro sempre arriscando se desfazer, mas Tina era forte, e também tinha sorte de ele não se enroscar completamente nas coisas da vida.

Eu via ela claramente agora, e percebia que nada, exatamente nada, me impedia de esticar minha mão e agarra-lo e sopra-lo, como se comumente faz com dentes de leão para se realizar o desejo daquele que o desfaz. E eu sabia naquele momento que não era apenas um simples desejo, mas sim uma condenação eterna.

É engraçado desejar realizar algo, utilizando como mote principal algo que se desfaz. Isso é uma direta pra mim escrevendo agora. Que pretensão tenho eu de escrever sobre algo que se desfaz? E de quantas lufadas um homem precisa para se desfazer, e se contradizer? Cá estou eu resumindo o humano (simplificando-o) em palavras.

Nisso eu sentei e chorei. E não sei por quanto tempo.

Tina ao ver que pela primeira vez eu havia me chocado com a realidade que sempre esteve ali, me levou para a cama e me colocou deitado. Em vagos vislumbres na luz fraca que entrava no quarto, eu via em contraste com a luz de fora o perfil de Tina que de tão denso e complexo, era vago e simples: ela se despia completamente agora; mas não de roupas, e sim de medos e moral, de moda(is), de nexo, de estética, de imposições, de convenções.

Senti uma brisa com o cheiro de Tina passar-me arrepiando, senti que ela relaxava completamente de todas as situações do mundo.

Ela sentou ao meu lado e acariciou minha testa. Tina pareceu não se incomodar com meu corte sangrando. E foi nesse momento que eu percebo algo que me arrependo até hoje de não ter percebido antes: o corpo inteiro de Tina estava machucado, e transbordando de sangramentos.

“Não se preocupe, no inicio é difícil, mas depois você se acostuma.” foi o que ela disse. E eu me senti seguro e totalmente desnorteado. Nós tínhamos a mesma idade, e fazia anos que vivíamos juntos, mas esse foi o primeiro dia que eu a percebi com os seus machucados, completamente despida de si no quarto que ela sempre se despe. Era eu que nunca a enxergava, mas ela sempre estava ali, e ela sempre me enxergara.

Passei a amá-la de verdade a partir daquele dia.

E foi a partir disso que eu me levantei e me recostei ao lado dela sentado, me achando um erro. Ela vendo que eu me erguia daquela batida, me ofereceu chiclete de tutti-frutti. O espelho que ficava no guarda a roupa a nossa frente agora nos revelava nossos verdadeiros corpos despidos (eu havia perdido exatamente tudo que me cobria quando havia me apercebido e me quebrado no banheiro).

Éramos dois manequins sem nenhuma nuance, mas também éramos um caos pulsante e eternamente mutável por trás da casca do frágil plástico. Essa era a nuance, e você pode também senti-la ao tocar outra pessoa. Nossos nomes a partir daquele momento passaram a ser uma ofensa, e se tornavam mentiras no mesmo tempo em que eram falados.

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~ Well

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