CONTO - O quieto
Para todos aqueles que não conseguem dizer.
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Dedico esse singelo conto à memória do grande José Mássimo Ilha Noya, o Seu Zeca, que será sempre lembrado por todos como aquele que nunca privou ninguém de sua verdade: dedico este pra ti, querido amigo, que a despeito das verdades deste conto serem as tímidas, as suas não foram! Esteja em paz.
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As vezes era preciso fazer um esforço para não o esquecer, pois ele passava pelas esquinas como se não fosse ninguém. E para ele, não era. Era difícil ser algo, mas era só o que lhe restava. Marcelo não era triste, apesar de ter certeza de não ser ninguém em particular; além de Marcelo, claro. Ter o nome é necessário, ele sabia. Era útil para papéis e documentos importantes, e também para aqueles tantos outros que não o enxergam direito. Serve para esses falarem. Aí eles o chamam — o nome — e ele aparece, em um pequeno vislumbre, diz oito ou nove sílabas, e some. Só o necessário para ele permanecer vivo. Para ele seguir indo adiante.
Mas talvez Marcelo fosse triste sim. Pelo menos um pouco. Mais por causa dessas partes dele de que ele não sabe, e que não há ninguém que possa lhe dizer, afinal, ele não é alguém em particular para os outros. Mas essa sua tristeza não é aguda. Talvez ela seja apenas uma doce melancolia constante, a qual nem sempre é doce. Mas a qual não é tristeza de fato. Tristeza geralmente é uma emoção dos felizes. Marcelo não foi e não é feliz. E para estar vivo, não é necessário ser feliz. Por isso que Marcelo existe, em sua quieta vida. E disso ele sabe.
Mas definitivamente Marcelo não é infeliz. Infelicidade acontece com a privação, e Marcelo não está sendo privado de nada. Claro, sempre estamos privados de alguma coisa (como Marcelo está privado de certas partes dele mesmo), como um parente distante, ou mesmo um país longínquo, ou o carro na vitrine. Marcelo é pobre, então ele é praticamente privado de quase tudo aquilo que as pessoas consomem. Mas ele nunca consumiu mais do que aquilo que ele precisa pra fazer as poucas coisas que faz. E atualmente, isso é um privilégio. Em seu silêncio, Marcelo sabe disso.
Ele morava em uma pequena casa de fundo de quintal, e não criava cachorros porque tinha medo e sentia-se incapaz de arcar com as responsabilidades. Ele vivia para si e se envergonhava disso apesar de não haver ninguém para acusá-lo. Sua casa era mínima mas ele criava plantas, as quais regava regularmente. Esboçou uma horta em dois potes e orgulhava-se do ato de comer o que cultivava, mesmo que pouco. Seu passado é irrelevante e não importava a ninguém, nem a ele mesmo. Por isso as vezes ele se esquecia de tudo. Isso eram coisas que ele percebia de noite, vendo a escuridão do teto.
A vida de Marcelo sempre foi um fragmento.
Viveu sua infância em um fundo de quintal de concreto. As únicas árvores que via eram as do vizinho que cresciam de encontro ao muro inalcançável. Havia o céu, onde por vezes ficava encarando as nuvens sempre indefinidas passarem enquanto estava sentado em cima de um bloco de pedra que protegia o gás de cozinha. Era mentira as formas das nuvens, Marcelo provara cedo isso para si mesmo.
Sempre foi tímido. E quem lhe perguntasse as coisas, geralmente ficaria esperando uma resposta inexistente. Pois quando questionado, Marcelo atrapalhava-se com as verdades da vida, aí ele esquecia de tudo. Isso começou cedo em sua infância. Sua incapacidade de pôr coisas no mundo era algo muito frequente, de tal maneira que tudo que fazia era para ninguém, nem para ele, de alguma forma. As vezes essa estranha situação de não ter ninguém, e de ninguém o ter, carregava seus olhos de sal e lágrimas, geralmente embaçando o caminhar das pessoas ou as gangorras de uma pracinha.
Sendo filho único de mãe solteira ele foi refém por muito tempo. A despeito disso ele via claramente as barras desse cativeiro, e as via de longe. Sua mãe lhe tocava e lhe cobria, mas Marcelo permanecia sempre naquele lugar mais fundo de si mesmo que nem o vento e água tocavam. Um lugar que não se molha e não se queima, e que nunca foi acariciado. Quando sua mãe faleceu já tinha 30 anos, e chorou um choro sincero e ecoante na sala funerária vazia. Na solidão mútua com o cadáver e o padre, Marcelo pôs para fora tudo. O que não era muito, como já se sabe.
Ele amou sua mãe, e ela foi a única pessoa que o amou de volta na vida. A despeito disso, Marcelo esteve longe de sua mãe, e seu amor era simples e quieto, ou seja, não obsesso, de sorrisos curtos e não intensos: era o que há de honesto.
Depois da morte de sua mãe, Marcelo ficou mais sozinho que antes. Os conhecidos, que por vezes poderiam ser amigos, eram distantes, mas eles não o sabiam. Achavam-se próximos, achavam que aquelas poucas sentenças interpostas chegavam naquele Marcelo sem nome que havia lá. Mas não chegavam. As vozes vinham, as palavras eram compreendidas, e Marcelo devolvia palavras solicitadas, e as coisas iam. Por vezes sorria, mas esse sorriso mesmo era uma grafia premeditada, uma espécie de personagem circunstancial. Esse jogo fez de Marcelo um amigo de seus amigos, mas para Marcelo esses amigos não eram amigos.
Essas lonjuras poderiam passar uma ideia estranha de Marcelo. Como se ele fosse sempre essa criatura que se coloca longe dos outros, mas isso obviamente é uma mentira. Marcelo é perto, mas nem sempre.
Marcelo, como qualquer um, também se deixa por aí. Se esquece nos bancos, nas esquinas, entre os cotovelos no ônibus. Marcelo já se viu trocando amenidades verdadeiras em conveniências, sorrindo para velhinhas extrovertidas e respondendo um mendigo carente de uma palavra: de ser ouvido para além de sua fome. Já conversou longamente com uma linda mulher que sentou-se ao seu lado enquanto amarrava o tênis, e também com um recém viúvo, acerca de botânica e rosas.
— Flores são belas enquanto vivem, e na morte se tornam parte do adubo de suas irmãs.
O botânico falou, sombriamente, entre suas explicações sérias, científicas, eficientes.
— Eu fiquei sentada lá né, só esperando que ele me falasse de qualquer coisa que não fosse de seu interesse, que ele meramente me visse ali, com aquele nó estranho na garganta, que me dirigisse de fato a palavra, me apontasse uma interrogação no peito, franzisse o cenho, levantasse a sobrancelha, realmente querendo me perguntar qualquer coisa. Entende? Mas perguntasse mesmo, tipo, do fundo da alma. Que me perguntasse qualquer coisa pelo amor de deus. Mas não. Ele não perguntava nada, ele só falava. Foi assim que passei o último jantar como namorada dele: segurando no meu peito, como se fosse segredo, que eu não tinha mais um pai.
Foi o que ela disse, meio despreocupada, sendo esse o verdadeiro jeito dela, meio ali sempre, enquanto seu ex-namorado parecia ser sempre meio lá demais. Marcelo ouviu-a com ouvidos agudos, e quis amá-la por um momento, mas viu que isso era injusto com ela. Aí silenciou-se e lhe deu o mais sincero ouvir que ele poderia dar. Depois de quatro paradas, despediram-se sem saber o nome um do outro.
Esse último encontro fez Marcelo sorrir. Alguma coisa era possível de nascer então, pensava ele, enquanto seu peito ardia uma ardência cor de rosa, afundando-se em direção a sua espinha, enquanto o ônibus trepidava no asfalto irregular.
Chegando em sua casa, nos fundos, bastante cansado, olhou para o céu aberto e ventoso daquela sexta de noite e pensou na garota do ônibus por um tempo. Viu que a angustia dela era semelhante a sua, e isso fez dele algo mais que alguma coisa, apenas. Ele envergonhava-se um pouco, pois ele sabia que tentar equalizar as coisas com ela sempre faria com que ela se perdesse, e ele também.
Pôs uma chaleira à esquentar água, esperou o chiado subir, e serviu-se café em uma xícara de latão, e mesmo assim, continuou a ouvir o vento.
A efemeridade dos encontros sempre perturbava Marcelo, e nessas situações ele sentia-se mais melancólico por saber que as coisas são singulares demais. Nada iria cobrir coisa alguma, as pessoas só estão perto quando de fato estão: ninguém nunca soube de nada sobre ninguém. Um nome nunca trouxe ninguém para mais perto.
Reconhecer tudo isso atirava Marcelo com mais força para longe, ou ao mesmo tempo fazia-o querer ir de encontro aos outros, se colocar lá para ser pego… Mas no fundo de sua alma ele reconhecia que não sabia como, não sabia como ir. Ele nunca soube como ir, então ele sempre ficava. E foi assim que ele ficou: ali, sozinho. Longe porque não havia ninguém para buscá-lo.
Naquela noite gestou silêncios que iriam perdurar para muito além de si, mas nem tanto, silêncios esses que seriam silêncios de outras pessoas, mas não muitas. Tudo na superfície daquelas páginas de caderno pautadas.
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47 anos depois Marcelo foi encontrado morto pelo filho do antigo proprietário de sua casa.
Depois de dois meses sem pagamento do aluguel, Jonas de 27 anos, foi cobrar o valor diretamente de Marcelo, mas foi barrado pela não resposta e pelo cheiro forte que emanava da casa. Até imaginou que fosse os maus cuidados do velho solitário, mas ao escancarar a porta notou o corpo caído sobre um prato. Ao chão restava quatro fatias tombadas de pão com geleia de goiaba, o qual para além das moscas, já ostentava formigas e um mofo preto em suas bordas. O prato estava quebrado em estilhaços, e em cima de uma mesa à meio metro do corpo estava uma quieta xícara de café gelada próxima de um bule que tinha sua alça enrolada com um pano de prato. Um saco de pão desenrolado restava pendente ao lado e a geleia destampada continha uma profusão de formigas, ela estava com sua proteção interna de alumínio levantada e já lambida. Ao lado do café posto na mesa havia um pequeno caderno esparsamente rabiscado com garranchos, e numa página nova, cuja qual estava aberto, havia um começo de sentença:
o que diriam esses pardais matinais de minha sentença inacabada?.. s
Jonas ficou meses pensando naquela breve profecia escrita numa manhã morna por um velho que morreria no silêncio.
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Aquele velho não tinha ninguém. Jonas procurou os parentes distantes mais próximos para ver se eles gostariam de herdar alguma coisa do parco inventário de poucas coisas que o velho deixou naquela pequena casa. Mas ninguém o quis, eram pessoas com coisas demais e ocupadas para quererem herdar tranqueiras de um velho desconhecido que só partilhava o mesmo sobrenome. Assim, as coisas ficaram para Jonas.
Jonas pensou dias e dias na sentença escrita do velho Marcelo. E buscou procurar entender quem foi o homem, mas apesar disso, nunca fora capaz de resgatar qualquer coisa que realmente dissesse respeito a ele, tendo apenas fragmentos de uma identidade extraviada, mas nunca conhecida. Perguntou à vizinhança, mexeu nos documentos do velho. Buscou os antigos empregadores, que eram donos de lojas de conveniência, ou antigos responsáveis por cargos de transporte público. Os empregos do homem e velho Marcelo eram pequenos, geralmente serviços repetitivos e entediantes, nada notáveis para ninguém. Jonas descobriu que Marcelo vivera economizando uma pequena herança de sua mãe, o que lhe permitia algumas poucas dignidades a mais. Pelo seu pai, Jonas já soubera da quietude e bondade de Marcelo, cujo qual o ajudou em serviços braçais e breves, e por isso o aluguel dele nunca mudara, e Marcelo sempre fora um inquilino que pagava na hora.
A coisa mais notável daquela casa eram os cadernos pautados de Marcelo. Lá Jonas encontrou uma fortuna de textos em prosa de alguém que via os cantos do mundo, de que enxergava os silêncios de todos os passageiros de um ônibus, e que dedicava-se por longas páginas sobre a vida anônima daquela singular pessoa que sentava sempre no mesmo assento. Pela caneta esferográfica de Marcelo, e seus garranchos irregulares, Jonas viu a dedicação sem fim de alguém que preocupava-se com os infindáveis ronronares de uma ansiedade feminina, com a lenta paciência de uma senhora em fim de vida, com a hiperatividade dos adolescentes, com toda a miríade de flertes sem correspondência, com todas as telas com palavras pela metade, figurinhas, emojis e tremeliques de um ônibus que fazia as curvas com pressa.
Havia páginas sobre as coisas também, e não só sobre pessoas. Coisas comuns mesmo. Marcelo escrevia sobre garfos e facas, e sobre bancos de praça. Marcelo escrevera mais de 50 páginas sobre uma mesma gangorra de uma praçinha cuja qual ele visitava todo final de tarde. Mas algo era notável: nenhuma dessas coisas cujas quais ele descrevia era desprovida de toque. Ele tocava todas elas, sem as mãos. E no fim, pareceu a Jonas que era sobre isso a escrita de Marcelo: não tanto sobre as pessoas ou coisas, mas sobre como essas tocam. Sua lírica se recusava ao abstrato, e apenas dedicava-se à uma linguagem do raspar e da contingência. Essa poesia que buscava a profundidade das superfícies que se entregam ao toque levou a Jonas tudo aquilo que lhe faltava pra começar qualquer coisa. Mas antes, Jonas se dedicou a revisar o texto de Marcelo, e criou um volume chamado de Fragmentos dos Silêncios do Mundo. Enviou o material já revisado para amigos que conheciam pessoas envolvidas com editoras, mas nenhuma delas interessou-se pela escrita anônima e desinteressada de um velho.
Nas suas páginas não havia batalhas, dedicatórias, ou ideais alguns. Não havia ajuda em suas páginas. Eram apenas descrições singelas de toques, de olhares, sobre vidas que nunca se entrelaçaram, mas que ficaram presas e reféns de um único toque, e no fim, sabemos que ninguém realmente se importa com um único toque.
Então, qual seria a importância da descrição do anônimo e do efêmero pela caneta de um velho sem nome?
Isso não importava para Jonas, e ele passou um bom tempo de sua vida tentando publicar os textos de Marcelo, mas ao fim, ele mesmo desistiu, e assim, esqueceu-se. Depois de Jonas partir, seus filhos se desfizeram de algumas de suas coisas, e dentre elas, de alguns cadernos pautados. Muitos destes foram usados para fazer fogo na lareira da sala na época do inverno, e geralmente, duravam uma ou duas noites. Numa dessas noites, Aline arrancou uma das páginas, e passou o olhar em meio à uma conversa com seu marido. Lá ela leu:
Faço da caneta a voz da árvore que diz ao céu: estou aqui! O papel é o corpo do eucalipto, e cada palavra é poro, pelo, carícia. As palavras são a maneira com a qual eu busco fazer carinho no mundo.
Aline sorriu, desviou o olhar, respondeu que sim para a pergunta de seu marido, partiu a página em duas, e atirou ela em direção as chamas que agora se erguiam esfomeadas.
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~ Well