CONTO - Não tenho nenhuma borboleta para vomitar
Uma impressão sobre o quadro Night Windows (1928) de Edward Hopper
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Havia tinta derretida pelas paredes e pelos caminhos que o levam até o quarto. Mas chegando lá:
— Tá insuportável. Eu realmente nunca pensei que isso fosse se tornar esse cisto.
Mal houve reação, além de um mero tremer de pálpebras.
— Isso parece não ter sentido pra ti?
Uma franzida no cenho. Claramente faz sentido, ela apenas não liga.
— Tu percebe que o apartamento tá se tornando uma tela de Hopper?
Um levantar de lábios irônico, um sorriso de canto.
Nesse momento ele ficou profundamente desesperado, ele estava vendo que toda aquela tinta estava começando a secar, e em nenhum aspecto aquilo parecia expressionista.
Sentou-se na cama, a qual já era dura e rígida, que nem uma pedra.
Atrás dele, uma janela aberta deixava o vento entrar, ou sair. Era difícil descobrir quem suspirava afinal.
— Tu percebe que me resta profundamente pouco? Eu passei o dia inteiro vendo as coisas se fecharem por cima de mim, e em nenhum momento lhe disse isso, para não criar incomodo algum. Porque isso é a coisa que menos quero: que você se incomode ao ponto de querer que eu suma.
Abriu um sorriso. Ele, olhou para baixo.
— Vê a que ponto estou: lhe incomodo agora.
Ela fechou o sorriso, e seus olhos vidraram.
— Não tenho mais destino algum a partir de agora… Apenas um grande e gigantesco fechar-se. Só me resta um obscuro silêncio, um fundo negro de uma parede parcialmente representada, esse canto esbranquiçado do tecido de trás. Um erro. E sabe? A gente na verdade ama essa parcialidade de nossa percepção. Essa seletividade natural do olho, essa impressão clara de que tudo que está ali de fato lhes salta em direção a vista. Como se o olho não tivesse esse autoritarismo da factualidade…
Ela me olhou com um ódio brutal.
—Eu sei que não tenho nenhuma borboleta para vomitar. Mas sabe que posso ser eu quem distribui essa tinta? Posso estar agora no outro lado da rua com uma arma apontada para essa janela, apenas esperando um mero vulto aparecer-se para mim disparar essa purgação. Afinal, ninguém sabe que estou aqui agora, então posso estar em qualquer lugar.
Ela ficou com medo, e estudou suas próprias mãos para ver que estava ali, e percebeu que parte sim, estava ali. Mas era só uma parcela sua que estava ali, a outra pertencia a uma realidade que eu não tinha direito de saber.
— Surpresa com a mímese? Você é só um manequim sem cabeça. Mal consigo lhe ver, e saiba que isso você não pode usar contra mim: eu não tenho nada, estou escondido, você por mais que me procure nunca irá me encontrar!
Ela levantou-se da cadeira, e o apontou o dedo em advertência.
— Não haja como se importasse.
Ela deu de ombros, levantou-se e colocou a xícara de chá em cima de mesa. Nesse momento ela perdeu um braço e uma cabeça, mas o resto está aí até agora.
Ele nunca esteve lá.
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~ Well