CONTO - Monologo de evaporação
Eu pego e acendo um cigarro, abro a janela e espero a chuva cair. Olho para trás e vejo aquele corpo nu e inerte que jaz ali tão próximo, na distância de um braço. Os pingos naquele momento estavam fazendo um barulho ritmado, parcialmente arranjado nas folhas de zinco. Não estava exatamente frio, mas também não estava quente.
O lençol pende para fora da cama, e o corpo mulato dela reflete em silêncio na penumbra parcial da janela.
O gato sobe no parapeito da janela, olha-me na face como se me dissesse um calmo monossilabo respeitando o sono dela, e então olha para fora, como se toda aquela chuva estivesse lhe chamando para uma conversa, e ali ele resta.
Ela tosse e seu seio palpita, mas ela não acorda. Me distraio.
Então vejo a hora uma última vez, antes da leitura.
06:40.
É cedo, cedo demais para tanta coisa. Mas aquilo tá ali, precisa ser revisado e aprofundado. Sei que provavelmente não terei problemas, porque confio no trabalho dele.
Mas eu sei que é um momento difícil.
Pego uma caneta, e abro o monte de folhas.
/ /
Depois do Fade-IN, há uma longa meditação onde ele descreve diversas coisas, imagens aparentemente desconexas mas que servem para uma topologia abstrata, que ajudará quem vê fazer certas conexões, que talvez façam ou não sentido.
As imagens vem nessa sequência: 1 — uma xícara em cima de um prato e farelos, 2 — um sorriso, só um sorriso, sem face; e/ou apenas a parte inferior do queixo e talvez um pescoço. 3 — Alguns pingos de água, que em um quadro diluído se tornam uma taça de vinho. 4 — Um caderno com algumas palavras que apareceram borradas na tela.
Então a imagem de uma sala escura, numa penumbra parcial, e na cozinha a distância, nota-se a luz do telefone e da secretária eletrônica.
“Olá, aqui é a Nicole. Provavelmente estou ocupada ou dormindo. Fale depois do bip.”
enquadra-se o telefone.
(…) bip
—(…) [um chiado constante]
“faz tempo. e talvez não dê mais tempo.
mas aqui fica minhas últimas coisas. que talvez possam dizer algo, ou nada. eu não sei. tentei dar sentido a tanta coisa e acabei me queimando. mas é que eu sempre senti que você não estava lá no final daquele túnel. e talvez você nem quisesse estar mesmo. enfim.
talvez você ache que essa tempestade toda dentro de mim seja para ferir você. mas está achando errado, e saiba que se ela te fere, eu não tenho controle.
mas eu tento ter. e caso você se pergunte o porque eu esperei você se deitar para mim te ligar, saiba que é porque eu não lido mais tão bem com atenções. ultimamente quero que ninguém me tenha como objeto de atenção, e não quero nem olhos e nem entradas […] sei que isso é um tanto egoísta, mas eu não sei mais o que fazer com isso, afinal, tudo está em ebulição e se esgotando aos poucos na nossa frente, derretendo por todos os lados em um processo de evaporação, e entropia.
saiba que não escrevo belas coisas; não há palavra de consolo e nem boas sepulturas presas em versos plastificados [em um sorriso eternamente inautêntico] [um frame cortado rasga a tela com uma foto de um indigente sorrindo, mas seus olhos estão riscados com uma caneta]. se tu procura um bom destino ou uma boa veste entre minhas vírgulas, saia correndo, pois aqui geralmente só acontece homicídios e coisas hediondas. de mim sei que não faço heresia com Rimbaud, não o provoco em sua revolta e nem brinco de luzes. o sorriso e sua falsidade, não tem nenhuma vírgula da brutalidade cínica de uma sinceridade cuspida, comum a Augusto dos Anjos e talvez a mais alguém que não tenha tanto a perder quanto sonhos pequenos e ambições estupidamente pintadas com um otimismo barato…
(…)
[chiado constante]
se quer que as palavras sejam arranjos que se proponham a essa beleza viciada, corra para esse lado [e saia daqui]. vá em direção a isto, e não se fruste com os possíveis encontros, pois aí estamos para gozar. então goze, de qualquer forma. mas fique no gozo, por favor, fique no gozo, não vá além disso, pois além não há muita coisa. proteja a delicada flor que há no seu peito…
aqui mesmo [barulho seco e de folhas] eu componho muita coisa com a bile de meus infernos, então te peço que vá embora porque eu já machuquei exatamente todo mundo que me tocou. e esse meu silêncio é composto dessas hesitações infernais, e minhas visões são tangidas horizontalmente por tantas coisas, que me converto em uma arma de dissolução em massa, uma partícula profundamente carregada, que só quer liberar sua energia através de um gatilho muito específico e simples, mas que tem seu destino frustrado, e por isso contêm-se imóbil. nisso, me transformo em um buraco negro que tenta se afugentar em algum canto do universo, porque não quero engolir ninguém, pois eu sei da minha capacidade de fazer isso.
(…)
[barulho de cadeira sendo arrastada]
lembra daquela vez em que você se aproximou de mim sem avisar? e eu achei que era um ataque? […] me desculpa, eu não queria que fosse. mas as vezes eu não sei diferenciar uma carícia de um soco, um abraço de uma prisão, um simples olhar de um julgamento. pra mim tudo é sempre um mistério, e assim fico sempre a procurar pistas pelos cantos para tentar acreditar que na verdade você me ama ou que está disposta a descer nas profundezas de meu poço de agudeza e de estupidez autofágica. nossa relação é semelhante a uma investigação policial, e você é sempre suspeita. até o momento em que isso se desmente por pistas posteriores. mas elas são sempre fracas e insuficientes para provar sua inocência.
/ /
Fecho as folhas em cima da mesa, e respiro fundo. Olho pra ela, que agora está de bruços. O gato dorme na janela, e a chuva permanece.
Coloco a mão na cabeça, e ela lateja.
Levanto e pego o celular, coloco os chinelos e calmamente saio do quarto, fechando a porta vagarosamente. Chego na sala e ela está em completa escuridão. Sento ao sofá e procuro o contato. O celular chama naquela escuridão, mas ninguém atende.
Abro o WhatsApp, e pressiono o ícone de áudio:
— Não vou conseguir escrever o roteiro.
Outra coisa estava saindo por lá.