CONTO - Inconsistentes baleias em meu quarto
Capitão Ahab está conseguindo sangrar definitivamente Moby Dick
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Eram cinco cordas que tinham aquele violão e eu de fato não lembro se era pra ter essa quantidade, porque eu só lembro que lá não fazia diferença e que eu encarava aquilo com tamanha intensidade para que no fim apenas fosse algo muito banal, que nem o copo de cerveja que meu amigo Raul levantava para fora do carro, e que como todo copo de bêbado nunca caí, o dele acertava as contas com a gravidade ao derramar pelas bordas. Vanessa gritava a plenos pulmões aquela música do Rolling Stones que eu não lembro, mas que está no conto do Stephen King, e não me pergunte qual. Duas pessoas que não sei o nome se pegavam no banco de trás e eu vagava como uma forma fluída, meio gasosa e meio líquida, sem forma, sem saber se eu era de fato ou se havia sido, nem sei se sabiam que eu estava lá. Mas tudo normal.
No posto de gasolina eu lembro que eu era, mas lembro do posto como fragmento porque eu estava muito preso ao chão, e ali eu não era gás nem água. Eu caminhei conversando seriamente com os dois que se pegavam sobre algo que eu não ouvia, mas eu sei que falava com veemência. Isso se apresenta como uma memória do tipo em que eu lembro que eu falava, mas não do conteúdo e nem da minha voz, apenas som de água caindo e de vento em folhas. Não estava chovendo.
A conveniência era azul, e sua porta era de vidros quadriculados, que por dentro eram brancos. Lembra do azul? Pois é, eu sempre vou lembrar do azul, inclusive eu quero muito tornar isso algo mais, porque de fato ela foi a única que me reconheceu, e eu tenho certeza que ela me impediu de ter uma certeza gigantesca com aquela baleia que dava rasantes em seus ombros e naquela estrada.
Chovia pra caramba na minha cabeça, mas só na minha cabeça, porque lá fora tinha sol e tudo era meio deserto que nem filme americano que tem postos de gasolina no meio do nada.
Eu entro e espero eles, mas logo fico impaciente pois eles enrolavam com algo. Assim me dirijo para fora e vejo a baleia no outro lado da rua do posto, vindo rapidamente. Mas uma garota de cabelos azuis se coloca de frente para a porta e me encara intensamente dentro dos olhos, foi a única que me percebeu.
No fim esbarro na minha cadeira que estava no meio do caminho e a ardência que produzia uma coceira já estava quase cedendo, mas na verdade eu sei que é impossível. Ao ligar o interruptor a luz invade meus olhos com muita violência, aonde tudo se converte em branco. Cruzo perto das portas e vejo meu violão com quatro cordas. “Caramba preciso vender esta merda”.
Sento no vaso e abro o celular e vejo que uma das notícias mais lidas era sobre política. Solto tudo que tinha pra soltar porque no vaso e de madrugada o homem é o ser mais livre da Terra.
Ironicamente vejo uma matéria de biologia no Twitter, a qual falava sobre baleias e sua extinção, mas sou interrompido por ela:
— Me ajuda.
— Com o que?
Lá se vai alguns minutos, e eu retorno para a baleia.
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— Não tá dando…
— Como assim???
(digitando…)
(digitando…)
(digitando…)
Lá vem textão.
De repente ela desaparece e fica offline e eu wtf.
Tenho estágio amanhã e tô cagando (na polissemia disso).
Mando alguns pontos pra ela, e digo que pode me ligar se estiver com algum problema e tal, e que iria passar na casa dela para a gente ir no estágio amanhã e que não precisava ficar nervosa. Ela não tinha feito nada de errado. Era só que ele era um bosta e estava usando de autoridade para oprimir e forçar alguma coisa… Mas faz tempo que eu já havia dito que eu ia me acertar com ele, mas sei lá, nem eu sei se posso, e no fundo eu sou muito cagão.
A torneira cospe uma gota e eu me limpo.
Me encaro no espelho sem conseguir ver minha face direito, mas sei que meus olhos estão vidrados. Enxaguo as mãos com uma sensação bizarra de dejá-vu. Volto ao quarto e vejo meu disco de platina na parede. Ele reflete a mim, e eu reflito ele.
Desligo o interruptor e vejo o escuro teto. Vejo o celular para ver se tem resposta dela, e nada. Deixo com notificações altas, para caso ela dê notícias de seu surto, e retorno a encarar meu teto.
De ressonância eu sei que não entendo, mas sei que aquele violão não fazia muito sentido. Eu fiquei pensando, percebendo que talvez eu não soubesse como lidar com ela e por isso eu só servia como uma daquelas estúpidas muletas. No fundo eu sei que era eu que estava com medo de me afogar em tudo aquilo. Olho para a dúvida com meu teto.
Mas quem sou eu mesmo? E vejo de canto baleias.
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~ Well