CONTO - Humano demasiado
Leis básicas da Planária Humana
1 - Um Natan ao se afirmar, causa outro.
2 - Um individuo ao afirmar Natan, causa outro.
3 - Um Natan sozinho não se afirma sem um espelho, ou silêncio. Seu próprio nome, em caso crítico, também afirma-o.
4 - Um Natan pode afirmar outro Natan.
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Natan nasceu em doença, mas só veio perceber que a tinha aos 6 anos, quando seu pai repetiu seu nome, e no exato momento, Natan não era mais apenas Natan, mas sim outro Natan. Isso foi um grande espanto para sua família, e mais tarde para o mundo. “Mas como logo em minha família veio vir um problemático?” resmungava o patriarca, e Natan se continha para não quebrar.
No inicio surgiu apenas um diferente, e sua família, que era tradicional, acabou por trancar o outro Natan no porão, aonde era alimentado sistematicamente por um curto período de tempo. Tudo isso enquanto o Natan que veio primeiro convivia naturalmente com o resto da família.
Este primeiro Natan estava reprimido em sua individualidade e não poderia ceder, pois sua família apontava-o o dedo demonstrando que ele por motivo algum deveria gerar outro Natan senão ele iria apanhar de pé de cabra, que nem aconteceu aos 3 anos de idade, coisa que ele nunca deixou de sentir. Ele coça a cicatriz em seu joelho.
Enquanto o primeiro Natan reprimia-se para não causar outro, o Natan no porão morreu de inanição porque a família já não alimentava-o. O corpo foi tirado de lá só quatro dias depois de morto, porque o patriarca sentiu o cheiro de carne podre. A família esquartejou o corpo e enterrou em um lugar longínquo em partes separadas.
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Um dia Natan passou em frente ao espelho e se encarou momentaneamente. Sentiu seu joelho ringir, sua mão vibrar, e sua respiração falhar, ele sentiu inquietude. E outro Natan surgiu.
Ambos se encararam. Ambos sabiam as mesmas coisas, tanto quanto as causas, quanto as consequências. Aproveitando o espanto do primeiro Natan, o segundo Natan quebra o pescoço do outro em um movimento abrupto. Sua mãe cruza momentos depois, e acaba vendo o corpo caído no chão.
— Desculpe mamãe, eu me encarei demais. Mas já resolvi. — Disse Natan enquanto sorria.
Sua mãe retribuiu o sorriso.
— Tudo bem querido, agora limpe o estrago.
Natan consentiu, e com felicidade enterrou Natan no quintal.
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Quando chegou aos 7 anos, Natan não apresentava mais problemas de ambiguidade. Parecia que sua doença havia se amenizado. E com isso foi para seus primeiros anos na escola.
De inicio não houve problema, mas ao decorrer do segundo ano do primário sua doença retornou.
Foi no meio de uma aula que ela se apresentou. A professora estava fazendo a chamada, quando por fim chega na letra N. Ao repetir o nome de Natan percebe que algo insólito havia acontecido, aonde havia um Natan, agora havia dois.
A professora em espanto, fica pálida e desmaia, e os alunos berram e saem correndo enquanto alguns choram. Um menino que sentava ao fundo da classe, e uma menina, que não choraram, vieram a frente conversar com ambos os Natan.
— Prazer em te conhecer! — Disse o menino para o outro Natan.
— Seja bem-vindo. — Falava a menina.
Natan sorriu, e a policia chegou.
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Depois desse dia Natan nunca mais viu sua família, e praticamente nunca mais viu nada verdadeiramente, só coisas sépias acinzentadas e cirúrgicas, pessoas de branco, muitas pessoas de branco, todas assépticas e sem Rosto, e os que conseguia ver eram estranhos e sérios. Sem expressão, nem boas nem ruins, nulo.
Os envolvidos no incidente da escola foram mantidos em silêncio ou silenciados, e a população nunca soube de nada.
Ambos os Natan foram separados, e estudados separadamente. Os cientistas nomearam a pesquisa de “o caso planária”, por causa da duplicação. Mas tudo foi em vão, pois nada foi descoberto. Não havia nada na genética de ambos os Natan diferente de qualquer outro ser humano, a não ser o DNA dos dois, que era idêntico.
A mente deles tinham memórias iguais até certo ponto, mas as experiencias individuais de ambos depois da separação eram particulares, descartando a ideia de memória simultânea e osmose.
Demorou para que viesse outro Natan. E quando este por fim veio, os cientistas ficaram boquiabertos com o que viram, e novamente não puderam explicar. As gravações não captaram quase nada, pois foi muito rápido, mas os que estavam presentes no momento só relataram que o Natan surgiu como se brotasse de uma ilusão de óptica que o primeiro Natan produziu, sendo que todos relataram o sentimento de vertigem como se estivessem próximos a um abismo.
Houve vários Natan depois deste.
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Os cientistas deixaram de investir assiduamente no caso planária, porque parecia que os resultados eram inalcançáveis. Mesmo eles tendo Natan e sua doença, e tendo submetido ele a várias experiências, ninguém conseguiu avançar com algum diagnóstico.
Um termo foi assinado, e foi construído uma estrutura em uma ilha em algum dos oceanos, aonde Natan seria levado e mantido lá sob vigilância, em total segurança e sob a sigla de pesquisa ultrassecreta.
Em 10 anos havia nascido mais de 50 Natan. E a única conclusão que os pesquisadores fizeram era a de que a doença havia piorado.
Antes o Natan se reproduzia quando alguém repetia seu nome várias vezes contando com uma improbabilidade de que funcionasse, ou colocando-o em frente ao espelho por muito tempo. Nem sempre isto funcionava, e as vezes ele naturalmente surgia.
Mas nos últimos meses de pesquisa o número de Natan cresceu-se muito rápido repentinamente. E os pesquisadores perceberam que apenas ao chamar o nome de Natan, ele se reproduzia. E que ao fazer o experimento de colocar ele em frente ao espelho, poderia-se gerar incontáveis Natan, tornando este experimento um risco para toda a ilha.
Três semanas após estes diagnósticos, só haviam Natan na ilha. Os outros indivíduos fugiram, pois perderam o controle.
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Agora os Natan estavam unicamente por si.
A instalação do projeto ultrassecreto era de grande escala, pois se presumia que Natan continuaria a se expandir em indivíduos. Mas não se previa que a doença chegaria a este nível, por isto que todas as instalações, agora, estavam abarrotadas.
A comida havia acabado, e os Natan estavam isolados, sendo que alguns já haviam morrido.
Muito tempo se passou, até que o problema da fome foi resolvido quando um Natan cedeu a fome e matou outro, e comeu-o. Outros viram isto e começaram a fazer o mesmo, se organizando em bandos e caçando-se entre si. A ilha retornou a um estado de instinto natural, e estabeleceu-se uma grande guerra tribal.
Mas ao mesmo tempo que Natan se matavam, a doença piorava. E em três anos a doença chegou ao ápice, e a partir daí não houve mais guerra tribal. Ela havia evoluído para um nível aonde não se precisava mais repetir um nome e nem cruzar em frente a um espelho.
Natan só precisava reconhecer Natan que outro Natan surgia.
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O caso da ilha por fim saturou-se e foi revelado para o mundo sobre imagens grotescas da ilha: não havia mais instalação, não havia mais árvores na ilha, não havia mais areia na ilha. Não havia nem mais ilha. Apenas uma pilha auto-reprodutiva de corpos de Natan que pulsava enquanto se auto-afirmava em pulos de uma vida que não vive, mas se reproduz. Eram pequenos grãos de existência que se refletiam a si, e ao mesmo tempo só existiam em si.
Era uma ilha antropofágica, mas era a mais humana de todas.
As imagens apenas revelavam corpos que caiam no mar, e um monte de matéria orgânica disforme apodrecida que enquanto um individuo estivesse a contemplar tudo aquilo, aquilo continuaria acontecendo e se manteria o ciclo.
O governo responsável por fim lançou ogivas nucleares para eliminar a existência de Natan. A explosão acabou com aqueles corpos, enquanto o mundo assistia em suas casas pela televisão.
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~ Well