CONTO - Grafofobia em uma tarde estranha
Sobre a leve hesitação perante ao escrever
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Há uma aventura em cada sentença não dita. Há sal nas palavras perdidas na praia. Há vertigem no pombo que está no muro entre os pátios. Pátios esses que tem cachorros que uivam sem poderem se cheirar ou mesmo se verem. Que berram sua presença sem ao menos entender o que fazem. Quando lhe vejo e te digo o quanto os pardais naquele dia foram responsáveis por eu me apaixonar, você me olha e diz:
“Isso é algo que só você diria”. E ri, ao final. Como se isso fosse um ponto. Me fazendo mais especial do que sou, como se não houvesse crimes nas minhas palavras. Vejo que cada vez que falo de algo, alguma outra coisa se cala em silêncio e minha sentença se torna um crime. Há um interromper sempre. Um medo no dizer. Um espectro do que não pode ser dito. Uma acusação de tudo aquilo que não disse.
Caminhando pelas ruas vejo as pessoas que não me veem e não vejo as pessoas que me veem. Um jogo de sombras, de não-reconhecer, de intimidades expostas mas em completos enigmas. Todas velando-se em segredo enquanto ninguém se olha… Mas há tragédia nos transeuntes, em cada esquina que passo há tragédia. O irremediável de estar vivo é saber que nessa procissão de homens, mulheres, crianças e idosos, há um crime prenhe… Você no fundo sabe que já deve ter passado por pessoas que foram assassinadas em seu dia a dia. E talvez, só talvez, você tenha feito contato visual com elas. E no fundo você sabe que muitas dessas pessoas tiveram fins repentinos, engasgos agoniantes ou mesmo desesperos suicidas… E apesar disso, você passou por elas em silêncio.
Mas você está aqui agora. Tão próxima com seu cheiro, suor, luz e sombra. Você me vê, e seu sorriso me faz cair no chão de onde parece que sempre estou por sair. A metáfora do pássaro sempre foi tola, e a gente sabe que as maiores lonjuras estão no chão e em toda sua geologia. Afinal, o que seria do pássaro sem seu galho? Ele cantaria enquanto voa? Ou é o repouso no galho que lhe faz poesia? O seu cabelo preso, e a parte dele que escapou de seu rabo de cavalo está ou em volume ou grudado em sua pele, e a beleza particular desse seu cansaço faz eu esquecer de meu descanso. Você me salva de cair neles estando aqui, tão próxima, me tocando, escorrendo sua mão pelos meus vales e dizendo que:
“Teu segredo é tão belo quanto o sol… Então porque o eterno eclipse?”
“É que a graça do segredo é o silêncio.”
Eu nem sei quem é você.
Aí a gente para, e o ruído da rua se vai como se nunca houvesse estado ali. Nosso suor já seco se acomoda junto a esse silenciar e assim se resseca um pouco mais. Nossa pele estando levemente viscosa de uma caminhada no meio do urbano, a camiseta empapada nas axilas, as respirações ainda avançadas, os corações saltitantes, os ouvidos abafados.
“Viu o homem com a caixa na mão? Seu cheiro? Sua tristeza? Suas lágrimas cristalizadas em sua pele ressacada do sol? Suas calças mijadas? Sua vida completamente atirada como um guardanapo usado no asfalto escaldante…”
Eu o via embaixo dos 40 graus daquele inferno. Carregando um cobertor que lhe serve de coberta e colchão; vestindo sua única calça jeans com uma bolsa de plástico em suas costas, os chinelos esgarçados, os pés ressecados. Sem intimidade e ali vagando… E eu lá, despropositadamente fazendo parte da mesma procissão que ele e com um chocolate no bolso.
“Não é sobre ele isso… Você precisa ter ao menos nós…”
“Não, eu não tenho certeza se posso”
“Me ama, por favor.”
Engulo a brutalidade do verdadeiro como se engolisse uma esfera de ouro fervente. Já houve outras vezes isso: um pedido estranho em uma tarde estranha. Eu ali, inseguro sobre meu próprio peso nesse mundo, e ela aqui, na distância de centímetros tentando atirar-se no meio do meu vácuo, com o aviso prévio de que vai fazer, sempre esperando aquela permissão velada de que eu a amo, de que eu a desejaria com as unhas dos meus dedos e com os cabelos de meu couro capilar.
“Eu talvez te ame, mas não consigo lhe confessar”
Eu já havia lhe dito sobre esse meu abismo. Sobre esse meu recuo eterno sem a tsunami necessária. A promessa do maremoto é o meu inferno. Só quem sabe o perigo da palavra que se esvazia na medida em que se é dita sabe o perigo de dizer “eu te amo”. Mas cá estou eu me derramando na palavra, enquanto tua respiração falha e você me diz as coisas nesse entre-respirar. Talvez você me ame, mas eu não consigo confessar isso. O problema do amor é a palavra.
O escritor odeia a palavra, porque a palavra não é a frase, não é sentença e nem verso. Uma boa estrofe, um bom parágrafo é aquele que não tem palavras. Onde isso que nos atrevemos chamar de palavra se esvai e escorre que nem o suor em teu pescoço e que nem o pingo de mijo no vaso. Mas é dela que eu cuspo esse mundo pra fora, como se a evidência tácita de sua existência não bastasse, de tal maneira a existir esse inventário nauseante de prosadores que precisam repetir para si mesmos que os copos estão sobre as mesas e as mesas estão sobre o chão. O que seria de nós sem dizer? Um engasgo, provavelmente, pois dizer é regurgitar o mundo porque não se aguentou comê-lo por inteiro.
Então é tolice minha achar que vou para algum lugar. Eu permaneço aqui mesmo enterrado entre vírgulas. Uma voz em tua cabeça, sendo uma espécie de sequestrador do teu eu profundo, lhe prendendo nas grades da palavra. Não há final para esse texto, não há final para o livro e não há final para qualquer frase que tenha sido dita no planeta. Sempre depois dela há o suspiro, e é o suspiro que acaba com as coisas de verdade.
“Tuas palavras…”
“Eu não as tenho. Elas não tomam nada do mundo, apenas lhe privam. Tudo o que tem nome é prisioneiro de um mesmo mundo. Esse que não está aqui e nem lá, mas entre nós, desprovido de toque”
Ela percebeu aquilo que tenho, a grafofobia, e que meu medo é o fim e o começo de onde propriamente estou. Um repetido para além do estar. Um crime de não saber que sou criminoso, de alguém que caminha equivocado certo de que se está certo, incapaz de perceber o equívoco de sua sombra, de seu pé ou de sua mão.
“Eu sou eternamente culpado pela vergonha que eles sentem diante de mim. Sua nudez é minha responsabilidade. Minha roupa é uma ofensa, uma faca, uma agulha. Minha camiseta arde, ferve. Meu corpo berra, quer estar ali, nu.”
“Se você tirar ela, você vai junto.”
“Você é tola. Eu não posso ser uma palavra”.
Eu sabia que ela não era tola e ela mesmo também sabia, e por isso eu disse. Aqui as palavras se tornaram como velcros bem superficiais, daqueles que se descolam, colam, descolam, colam, e aí não se grudam mais e só nos resta esse sorriso que ela me dá em desafio e meu levantar de lábios que faz com que ela entenda.
“Você acha que eu devo ter medo do dizer… Mas na verdade eu tenho do não-dizer. Ele sempre fala mais do que qualquer coisa que foi dita. Esse é o perigo do dito, do escrito, etc. É disso o que eu tenho medo: o de escrever coisas terríveis.”
“Você não vai escrever nada terrível…”
“Como você pode saber?”
“Você que é incapaz de saber por si só. Mas eu não… No começo daqui as palavras tinham resíduo, você não lembra? Claro que não, você é incapaz por sua própria pena. Só depois que as coisas desandaram e você começou a crer que nelas não há nada… Que tipo de poeta é você que condena a palavra? Saiba que se tudo fosse claro para ti ninguém precisaria ler o que as pessoas escrevem, e diversos livros de ensaios literários poderiam ser queimados por não terem valor. É difícil admitir para si que na verdade se é incapaz de saber onde se está sem ajuda de alguém… Esse é o seu problema: você acha que está sozinho.”
“Eu sei que não estou”
“Você não sabe, e por isso vive o drama da queda enquanto encara seus pés e ignora o chão. Você não sabe nada sobre vertigem e equilíbrio.”
Nisso, eu me calo. Não sei o que ela está querendo agora, não sei o que posso e nem onde estou. Levanto da cama e o crepúsculo se congela no céu. Os morros a distância me lembram do mistério que há nas minhas mãos. Um signo estranho semelhante a um cubo mágico infinito, cujo o qual eu tento resolvê-lo mas suas cores se multiplicam sempre que movo suas vértices; ele pulsa como um arco-íris, e por ele vejo cores estranhas que vão além da minha capacidade de compreensão. Encaro-a:
“Onde foi que eu encontrei isso?”
“No bueiro. Lembra? Dia chuvoso, você viu um papel com escrita em mandarim no meio fio e ao olhar para o bueiro você notou a luz…”
“Porque eu não lembro disso?”
“Talvez porque você estava preocupado demais”
“Com o que?”
“Com ter certeza de que sabia.”
Eis uma certeza perigosa.
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~ Well