CONTO - Espera
Conto escrito com a bolinha de gude que se forma em meu estômago no meio da minha angústia
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Eu percebia que tudo havia começado naquele silêncio.
Pois naquele silêncio havia muita coisa, muito não dito, que de tão pouco era muito. Eu vi que quando eu de repente disse, ela olhou-me de dentro, e fugiu com os olhos em um abraço, e o que só recebi foi seu queixo em meu ombro, o qual, provavelmente, tinha um pequeno sorriso.
De certa forma e de maneira latente, eu sabia que tudo a partir daquele momento era uma gigantesca espera para a resolução desse silêncio, mais especificadamente, sua quebra. Eu via nos olhos dela uma dissimulação e um desvio, via que quando eu estava lá o seu sorriso era um tom mais exagerado que o natural, e que quando não tÃnhamos o que falar, tudo se convertia naquele silêncio.
É engraçado que naqueles meses que se seguiram, as coisas foram ficando cada vez mais esparsas e indiretas. E do alto de meu ceticismo, eu estava percebendo todos os meus erros.
Via isso com certo ódio de minha parte, pois como eu havia entendido tudo errado? Que tipo de delÃrio havia assomado meus sentidos?
De repente um espelho se quebra na minha frente, e assim começo a ver os pequenos detalhes de meu passado, e ali começo a perceber a partir de sutilezas que na verdade ela nunca esteve aqui. Percebo meu delÃrio, e meu autoflagelo. E a partir daquele momento, eu virei inimigo dela. Mas um vilão sútil, que não deixava revelar o quanto me sentia machucado e invadido por ela. E assim matei e esquartejei aquele silêncio, e enterrei em lugares diversos de meu próprio corpo, para que ela não descubra tão facilmente a prova de meu crime.
Mas para minha surpresa, ela não notou diferença alguma.
Eu poderia então adotar a minha indiferença, mas não sem chorar a noite minhas fraquezas. Ali, eu vi que nunca mais iria ama-la.
E então aos poucos o que tÃnhamos foi embora.
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Eu via a rua movimentada lá embaixo enquanto lembrava de tudo aquilo.
E tudo aquilo, me trazia em conjunto uma grande insegurança, pois eu era um verme enterrado profundamente naquele apartamento. Eu roÃa os cantos e derrubava farelos no chão. Eu não percebia, mas eu me alimentava de minhas próprias partes ao não me reconhecer. Eu era um alienado de minha identidade, e achava a coisa mais estranha possÃvel a aproximação.
De tarde, ela me ligou:
— Precisamos conversar.
Ela disse em seu tom de voz inabalável.
Ali dentro de mim coisas se arrancaram aos poucos das raÃzes, e assim lutaram para subir a superfÃcie, mas fui lá e esfaqueei cada uma delas.
— Tudo bem.
— Pode ser hoje a noite?
— Pode…
Ela desligou sem se despedir, e eu achei coerente. Já achava aquilo estranho, pois ela nem pensou em me mandar uma mensagem e nem nada. Acho que ela quis mostrar que era algo sério. No pacote, me trouxe a ansiedade, e fez meu corpo ser palco de uma investigação policial.
No resto daquela tarde eu me recostei em um canto, e fiquei lá por um tempo, tentando segurar o novelo de lã de minha ansiedade, o qual vibrava enquanto eu tentava o enrolar. Na minha frente vi tanta coisa, que achei que meu presente estava aos poucos se desfazendo, perdendo sua forma e seu status ontológico. Meu estômago se recusou a fazer sua tarefa mais básica, e minha cabeça compensava todo o resto.
Mas era meus olhos os meus maiores traidores: pois aos poucos, eles caminharam por todo o apartamento, e acabaram encontrando os vestÃgios que eu tentará em vão esconder. Eu lembrava daquela cômoda, e de tudo que havia repousado nela em todos os momentos do tempo. Eu via aquela cadeira com uma pequena marca em sua guarda, e eu sabia quem havia a feito. Vi o fogão, e lembrei de tudo que havia sido feito em cima dele. E aà percebi a guarda da cama… E foi isso que no fim causou toda a comoção em minha cabeça.
Nisso, me coloco em pé. Precisaria limpar tudo aquilo.
E aos poucos, foram desenterrando os pedaços daquele silêncio que eu havia brutalmente assassinado.
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Quando eu acabei, muita coisa havia sido refeita e eu sentia que tudo aquilo era artificial.
Me olhei no espelho.
Me sentia sujo ainda, em contraste com o resto. Via, que além de sujo, eu era um produto definitivo de minha ansiedade. Era-me impossÃvel viver no tempo presente, e estava condenado a aderir a meu passado e ao meu futuro aos poucos.
Cada objeto daquele apartamento guardava uma poderosa reminiscência que destruÃa meu presente, e parecia que todo aquele momento estava mergulhado em uma poça revolta, um quase oceano de introjeções que esperam ser subvertidas, ou mesmo esquecidas.
O futuro abria o presente como uma tangerina.
E eu já estava lá, na sala vazia. Na eminência de sua chegada.
Sozinho eu me afogava nas indeterminações daquele lÃquido. De tal modo que afundei-me na poltrona até ela mesma desaparecer, mergulhada naquela atopia acrônica. Ali vi-me sujeito a ter de resistir com minhas próprias pernas o sustento de meu peso naquele mundo.
Minha condição ali era eterna, de atemporal.
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Ela chegou, mas já fazia tempo que ela havia chegado.
Eu abri a porta e meu peito vibrava, e ela olhou-me porque tinha que faze-lo. Escancarei mais a porta e ela entrou. Provavelmente trocamos alguns monossÃlabos. Não sei pois ainda estava sentado enquanto isso acontecia. Ela já sabia onde sentar, e fez isto.
Como sempre, olhou-me de dentro. Procurou dentro da sala de estar torta dos meus olhos alguma emoção subtendida ou mesmo um resquÃcio paranormal de uma telepatia que há muito tempo havÃamos tido. O que ela encontrou permaneceu um mistério, pois eu estava cego para perceber alguma conclusão em seu semblante sempre meio esguio e enigmático.
Tirou uma carteira de cigarro do bolso, e me mostrou. Positivei inclinando o pescoço, e possivelmente isso tenha acontecido em uma velocidade mais lenta que o normal, mas tento não pensar sobre isso.
Ela acendeu e tragou. Havia um cinzeiro em cima da mesa, ela trouxe para perto. Aquele cinzeiro havia sido dela, eu não fumava.
— As coisas parecem nas mesmas.
Aquilo fulminou o apartamento, o qual se tornou uma caricatura rabiscada de um desenho puxado de memória por um desenhista inexperiente e de talento questionável.
Olhei para meus joelhos, e eles permaneciam os mesmos.
— De certa forma. — Respondi.
Eu ensaio muito bem as coisas. Tudo estava diferente e são as mesmas coisas.
Ela sorriu. E olhou para o tapete, mas era claro que ela estava olhando mais para si do que para aquela mandala abstrata que tinha no tapete. Naquele momento, em fuga, até pensei em como é curioso uma peça artÃstica daquelas ser usada para pisarmos. Era uma caleidoscopia que me evocava um sentimento muito particular de vertigem, e um tipo de desconfiança que me leva a questionar se por trás de tudo aquilo o artista havia escondido um tipo de sussurro, naqueles cÃrculos e floreios… Eu vi que agora ela me observava, e isso me envergonhou.
Ela era muito bonita. Isso me lembrou de como ela é bonita.
Ela tem esse cabelo liso, eternamente liso, que se expressa através dessa insistência delicada de se distribuir uniformemente em qualquer lugar que resida. Em almofadas, travesseiros, cobertores e na minha mão… Sempre consistente e sedoso.
Enquanto pende de sua cabeça aquela cascata especÃfica enquadra aquele seu semblante particular. Eles caem por fora da armação de seu óculos, que é preto. E seus olhos, que são castanhos, se paralisaram no tempo naquele frame momentâneo que minha memória tenta segurar. Aquele espaço do tempo em que nos encontramos.
E nisso minha cabeça confunde tudo: de repente nos conhecÃamos no corredor do dormitório, e lá estávamos, na porta de nossos quartos enquanto todos se embebedavam a nossa volta. E lá caÃmos ambos nessa armadilha que compartilhamos, um no outro. Esse enrosco que acabamos nos metendo.
Nunca fiquei tanto tempo escorado em um portal quanto daquela vez.
— Mês passado, não veio. E nesse mês também não.
Aquilo me trouxe tanta coisa que eu não soube exatamente o que segurar nas mãos, mas isso me lembrou da primeira vez que nos tocamos. Acho que foi um esbarro, um de repente, de quando eu ia pegar o copo com aquela mistura meio rançosa de rum com coca morna que eu tomava para me manter suficiente aberto para te receber nesse pátio de fundo de casa, o qual estava com grama para cortar, e que era a representação de minha intimidade.
— Eu já fiz o teste, e por isso estou aqui.
Muita duvida surgiu aÃ, mas nenhum desespero. Havia até um lampejo de esperança, mas ela era tão pequena e banal que poderia muito bem ser esquecida naquele canto.
Eu meio que não estava entendendo o que ela disse, pois a mandala me chamava, e eu ia caindo em seus corredores e em circunferências absurdas que sua matemática não podia deter. Eu pensava era naquela sopa narcÃsica de meu ego, na qual eu via ela nua em minha frente, do jeito mais sexualmente submetido possÃvel, apenas para provar aquilo que meu juiz mais severo iria condenar: a minha mediocridade por isso.
A razão veio, e eu pensei, espera.
— Você tem certeza que eu tenho haver com isso?
Me senti um lixo. O pior lixo concebÃvel por perguntar isso para ela. Logo ela, aquela que riu de meu desenho patético e surrealista daquele ano bonito em que vivÃamos, aquela que ouviu o esqueleto de meu romance tedioso e dormiu no meio, aquela que me disse as coisas com a maior sinceridade que eu já havia ouvido… Mas ela era ainda a pessoa dona daquele silêncio.
Me restabeleci em um ceticismo cÃnico.
— Tu acha que eu estaria aqui se eu não tivesse certeza?
Ela estava irritada. E parte de mim dava razão para ela, mas a outra ria, e outra esbravejava.
As coisas estavam estranhas, e o ancião mais profundo se sobrepôs a toda aquela camada mais superficial de negação, de maneira a contrastar mais ainda com todo o resto, fazendo com que o todo se tornasse um conflito muito mais angustiante do que já era.
Eu meio que não queria mais, pois tudo aquilo havia acabado por se transformar em um ralo no qual eu não sabia mais o que poderia cair lá dentro, de maneira que eu não tinha mais certeza alguma sobre nada…
Assim, o futuro foi se ressecando, e eu não sabia mais onde estaria nos segundos seguintes. Tudo se tornou suspeito.
Olhei para ela.
O cigarro queimava em sua mão. Ela olhava para os joelhos e parecia distante, perdida e decomposta. Talvez não fosse mais algo, mas sim aquilo que poderia ser. Ela se torcia. Claramente ela estava fazendo isso. Ela tinha esse costume, de ver-se e reduzir-se, frear-se. Nesses momentos ela queria ser como uma fita cassete que se auto-rebobinava, para fugir do que havia decidido. Ela via que seus erros se revelavam como equÃvocos em escolhas maniqueÃstas no passado. Ela caminhava com o peso de suas angústias sempre que as coisas ficavam difÃceis.
Queria poder fazer algo, levantar a mão, lhe dizer que tudo estava ok e todos os seus afins posteriores. Mas isso seria ensaiar, e eu não estava bem com aquilo para fazer com que ela ficasse bem com aquilo.
Eu sentia uma dor de cabeça. E no meio de minhas fechadas de olho, eu ainda me enxergava naquela estrada sombria na qual me meti no segundo dia após aquele dia. Eu arrotava uÃsque, enquanto bebia uÃsque. Meu esôfago baforava fogo, e a estrada se tornava mais intensa. As faixas amarelas que separavam a via dupla se tornavam uma linha homogênea, e a música, a maldita música, me caçava como um criminoso internacional.
Não havia carros, e eu só pensava em sua face… Quando tudo sumiu. Pisei com tudo no freio, parando no meio do asfalto. Abri a porta e vomitei lá mesmo. E no meio dos aperitivos e da sopa etÃlica que saia até pelas minhas narinas eu ainda gritei.
As coisas desembocaram a partir daquele segundo. E ali, eu te olhei de fundo, e tudo saiu.
E nisso eu disse:
[Todas as vezes nas quais eu me senti solitário, de como eu sempre acabava perdido no fim daquilo, sendo levado para onde você fosse. Das suas costas e ‘os pra depois’ além dos ‘sem problemas’. De todas as vezes nas quais você não havia sido sincera, mesmo que eu piamente acreditasse nisso…]
— E o Rafael? —Lhe perguntei com intenções horrÃveis.
Ela pareceu surpresa. E eu achei cÃnico, ou ingênuo da parte dela.
Aquilo tudo ainda estava em certo espaço de mim que era parecido com um tribunal. Onde eu era um juiz despótico e parcial, e naquele reino emocional, de uma ditadura de tonalidades especÃficas, a justiça era um braço de minha egologia. E como o estado era de exceção, o regime era fascista, pois houve um golpe.
— Eu não ligo para ele… As coisas não eram como eu acreditei que fossem…
Aos poucos uma onda de calma e de silêncio se fez no meio daquela tempestade. Naquele momento as coisas estavam revoltas, mas havia uma quietude em mim.
Mas não estava calmo o suficiente para que uma importante decisão fosse tomada. Mas ao mesmo tempo, eu sabia que não era assim que as coisas funcionavam. Que não era preto no branco.
Mas ela…
Ela me violentava por estar ali apenas.
Sua simples presença era violência, depois daquilo tudo. Depois de toda aquela quebra de contato, e estranhamento... É triste saber que você no fim era o alienado das coisas, e de que nada estava indo bem, por razões que vim a compreender só posteriormente.
Mas será que isso importava?
Ela trazia em seu colo algo que não estava lá antes. E, apesar de tudo, da causa daquilo não ser eu. Eu estava sendo a consequência.
Mesmo assim, havia incerteza. E nada me dizia nada…
Com isso, coloquei em palavras hesitantes tudo isso ali: naquela mesinha de centro, ao lado do cinzeiro.
As coisas eram esparramadas, porque eu sou dessa forma, bem desorganizado e mal entendido. Eu ia aos poucos catando as palavras cegamente, como que compondo um poema bem feio sobre o que estava sentindo naquele momento. Eu rapava de dentro de mim cada canto daquilo que sentia e ia colocando em cima da mesinha.
Enquanto falo eu até arranjo bem as coisas, e elas mesmo vão se aparecendo em mim. Não há antes, tudo sai ali. Mesmo que seja de algo antes, aquilo é ali: na mesa de centro, e entre nós. O cinzeiro estava na borda.
Mais um pouco, e ele caiu ao chão derrubando as cinzas por cima da mandala, conseguindo assim, de fato emular as coisas.
Na mesinha de centro, agora estava a pequena estrutura de meu ser completamente externalizado. Era algo torto e feio, meio transparente e não fazia sombra. Era esquecÃvel, mas era nudez.
Aquilo doÃa em mim.
E por trás daquela iridescência eu via ela. Meio turvada por tudo aquilo. E me pergunto se era para ser assim mesmo.
Eu sabia que era inevitável… [mas será que era?]
Tentei tornar aquilo o mais transparente que podia, mas aquilo ainda turvava as coisas. Mas cadê ela? Como não posso simplesmente ver ela através disto? Porque sempre existe um vidro embaçado entre nós? [Parece que o calor de nossos ditos embaçam a superfÃcie lúcida que era pra ser a simples presença um do outro]. Passei a mão em tudo aquilo porque queria que minha visão penetrasse dentro daquelas distorções todas.
E de repente, vejo o seu rosto. E seus olhos estão dentro de mim. E eles dizem aquela coisa silenciosa que não é dito.
Dentro daquela dissimulação toda do que disse, uma pequena lágrima que brota do canto esquerdo de seu olho desaparecia. Emoldurada por suas pálpebras sutilmente tensionadas, ela brotou, e escorreu. E você não disse nada.
E a estrutura de tudo aquilo que disse, corroe-se aos poucos nesse silêncio. Há tão pouco espaço dentro dele, que é difÃcil respirar, e o pior disso é ter de esperar ali. Estando posto ali nesse meio tempo.
Nossos olhos discutem, brigam entre si, e no fim, se beijam quietamente. Depois, em um rompimento, se brutalizam, se canibalizam, mas sempre com pena e remorso um do outro. Todos esse cenários existiam agora naquele momento. Naquela simultaneidade de caos ordenado entre uma palavra e outra.
Eu sentia que poderia morar ali naquele silêncio entre palavras.
Ela olhou-me então com tudo que podia. E de certa maneira eu sabia o que ela estava pedindo.
Apagou seu cigarro no cinzeiro que estava no chão, e rumou-se em direção a porta.
— Até outro tempo. — Disse ela.
Nesse momento tudo ruiu, o silêncio esbravejou em barulho, em um zunido interno. E todas as vozes da minha vida invadiram-me os sentidos. De todos os lados, em um grito inaudÃvel e profundamente interno. Era a verdade.
— Espera.
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~ Well