estranhas violetas 🌺

CONTO - Apenas uma piada

Other friends have flown before —

On the morrow he will leave me, as my Hopes have flown before.”

Then the bird said “Nevermore”.

Edgar Allan Poe, The Raven

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Estavam apagando as luzes. E Timão estava esperando o senhor Tiago, o dono do lugar. Era na porta dos fundos que dava no estacionamento, e era noite, e tudo que se fazia, ecoava.

— Te pagarei porque foi prometido antes. — Dizia Tiago enquanto contava o dinheiro em sua carteira.

Timão olhou para o dinheiro com uma centelha de vida, que logo se perdeu em seus olhos negros e secos.

— Obrigado Tiago.

Ele já estava de saída quando Tiago avisa:

— Se me procurar semana que vem, eu não sei se te aceitarei novamente.

Timão sabia que não iria mais aparecer ali, nunca mais.

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Trancou a porta atrás de si, e pensou em várias coisas, dentre as quais algumas davam até medo, e outras que o deixavam melancólico. Nada que fugia á normalidade. Agora era o momento em que ele poderia respirar por algumas horas aliviado antes da cidade acordar e lembra-lo de que ele existe.

Soltou o dinheiro na mesinha da entrada junto com a chave. Foi a geladeira e a abriu: duas latas de Heineken, presunto, e uma caixinha de Toddynho. Pegou a última e ligou o computador. Jogou um jogo geométrico no telefone enquanto o computador iniciava.

Não havia internet.

Respirou profundo. Falhando, mas ainda respirando. Falhando, mas ainda vivendo. Falhando, mas ainda tentando.

Sentou no sofá e abriu um livro. Começou a ler. Estava na vigésima página e não sabia o que estava lendo, porque sabia que daqui a dois dias tinha que pagar o aluguel. Voltou as vinte páginas e começou a reler. Percebeu que já havia lido aquelas vinte páginas e sentiu tédio. Fechou o livro e começou a roer as unhas olhando de um lado para o outro.

( pensou em várias coisas, dentre as quais algumas davam até medo, e outras que o deixavam melancólico. Nada que fugia à normalidade.)

Não percebeu mas estava chorando.

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— O que vai querer senhora?

— Um quilo de bife de boi.

— Alguma preferencia?

Um não com a cabeça. Ele teria que escrever isso logo após:

( — Um quilo de bife de boi.

— Alguma preferencia?

— Sim. Boi.)

Ficaria bom com a dos rótulos, Timão sabia.

Foi colocando várias tiras uma em cima da outra mecanicamente. Pesou: 1, 02 Kg. Já estava treinado. Já sabia qual era o peso da morte. Deu aquele giro clássico de atendente de açougue para dar o nó, tirou a etiqueta e a colou e entregou para dona Matilda que saiu em seu trote patético.

Viu o velho Samuel. E sabia até o que o senhor ia pedir, e até se não pedisse, saberia que seus filhos estariam visitando-o. Quando se envelhece não se é tão critico com a comida, a Náusea já faz parte até do paladar, é apenas papelão.

— Meio quilo de Fígado Timão. Sorte que ta na promoção.

Não tinha visitas. Timão sorri de canto. Movimentos mecânicos. Tiras e mais tiras. Pesou. Porque pesa? 0, 5 Kg. Porque pesa? Girou. Apertou.

— Obrigado senhor Samuel. Boa semana.

Isso soou como devia soar: patético.

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Havia 3 mensagens no Whatsapp. Timão só olhava o celular em seu curto intervalo. Era Ana, um dos únicos motivos que levava ele pensar em continuar ali, e continuar tentando (falhando).

(oi

precisamos conversar, me encontra mais tarde no Único)

Estava escrito exatamente assim. Ele sentia uma pequena pontada abaixo dos intestinos, aquela pressão gelada.

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Ela estava bonita. Mas Timão estava apenas como sempre. E Único era um café barato, que ficava no fim de um beco, apenas pessoas viciadas iam lá, para se entorpecer de café, empadas e croissants.

— Oi.

Ele disse enquanto sentava-se, ela estava inquieta. Ele queria algo até que sério, mas ela apenas queria o seu pau e seu ombro. Timão não achava essa atitude ruim, ele até admirava, mas isso não deixa de machucar.

— Olá. Ãhnn… Queria falar sobre Thomas.

— O que tem ele?

— Ele vai me buscar, e eu viajarei para o Centro.

(Centro era uma cidade metropolitana, localizada no centro do estado, por isso Centro)

— Está bem. Quando volta?

Nunca mais.

Ele sentiu o que já havia sentido, e o que já sentia, mesmo antes do nunca. E depois, do mais.

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Foi visitar sua mãe.

Ela morava no asilo que era mais afastado da cidade. Ela era cadeirante. Cansou de caminhar, e quase cansou de viver, quase. Seu nome era Maria, como o da mãe de Jesus, e da puta que rodava a bolsa na esquina da casa de Timão. Pra essa ele rezava, era apenas 150, valia a pena, era menos que dizimo.

Maria Adelaide (não de Amaral, pelo amor de deus).

— Fico feliz que esteja bem.

Dizia Timão. (Isso soou como devia soar: patético.)

— Também meu filho, eu também.

Ele não sabia se isso era para ela mesmo, ou se para ele.

Isso foi a última coisa que sua mãe lhe disse, o resto foi balbucios insanos de uma mente fragmentada.

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Era o dia de uma apresentação, na verdade A apresentação. Era apenas essa e nada mais.

Pegou seu celular e enviou uma mensagem para seu único amigo:

(É, eu tentei. Essa é a última apresentação. É apenas isso.

Nunca mais)

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Era sua vez. Subiu ao palco. Devia haver umas trinta pessoas, apenas. O foco de luz estava nele. Seu bolso pesava. Mas apenas faria se sua apresentação fosse bem sucedida. Agora era:

— Já pensaram na redundância? Um dia vi um louco que gritava na rua: “EU SOU LOUCO! EU SOU LOUCO! Ele estava apenas de roupão de hospital, e estava desamarrado, suas costas estavam livres. Eu sabia que ele era louco porque ele estava cagado, apenas por isso.

“Mas observem uma coisa: o que faz de um louco, um louco autêntico?”

“Um dia me conceituaram a verdadeira loucura como: ‘O louco só é louco pois age em loucura achando que esta ficando mais são’. É nesse ponto que o louco que falei anteriormente entra como uma grande antítese, ou na verdade, um paradoxo. Se ele berra na rua que ele é louco, ele esta agindo de forma consciente em relação a sua loucura, ou seja, ele esta achando que esta são por afirmar que esta louco. Mas a questão é: ele estava dizendo a verdade. Ele realmente era louco. Então como posso defini-lo como um louco autêntico? Sendo que ele fala a verdade?

“O que eu acho disso tudo é que talvez nós apenas sejamos loucos mais convencidos que ele. Tão convencidos que nem cagamos nas calças.”

A plateia estava em silêncio.

Timão pensou em fazer a piada dos rótulos (que havia incrementado com a da carne), pensou em fazer uma sobre política, e sobre a moda. Sobre internet e sobre gatos. Sobre times de futebol, e com o próprio nome. Mas porque?

Porque pesa?

Se já sabe o peso?

— Quem cair no chão primeiro ganha!! — Berrou Timão e pegou o revolver do bolso e atirou na cabeça.

Caiu como uma tira no chão. E esse foi o único momento em que a platéia riu.

(por fim Timão teve sucesso em seu Stand-Up. Ele fez o homem rir da própria piada)

/ /

~ Well

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