estranhas violetas 🌺

CONTO - A fossa das marianas

“…Tenho a impressão de que as paredes, de cada lado da rua, aumentaram de tamanho, aproximando-se umas das outras, e de que ela está no fundo de um poço…” A Náusea, Jean-Paul Sartre

/A fossa das Marianas Ă© o local mais profundo dos oceanos, atingindo uma profundidade de 11 034 metros. Localiza-se no oceano PacĂ­fico, a leste das ilhas Marianas, na fronteira convergente entre as placas tectĂ´nicas do PacĂ­fico e das Filipinas.

/Fossa: 1. abertura, cavidade, natural ou artificial, no solo; buraco, cova, fosso.

/ /

Senhor Alberto estava com o braço para fora da camionete enquanto o vento fazia as mechas de seu cabelo crespo balançarem descontinuadamente, essas poucas que se escapavam de seu boné de adubos agrícolas.

Ele particularmente gostava de seu trabalho. Era braçal, mas a cerveja a noite era seu grande oásis.

Chegaram por fim ao lugar. Todos desceram das camionetes.

— Tem motosserras. Mas apenas algumas. Alguns terão que pegar no machado.

Ele nem sabia que acabaria com vidas naquele momento, ele nem percebia.

/ /

Yuri olhava nos olhos de Mariana quando aconteceu.

Já fazia tempos que eles caminhavam naquela praça, e ali eles já eram conhecidos pelos senhores das esquinas, os quais se cotovelavam quando ambos passavam. Geralmente caminhavam de mãos dadas no verão, ou abraçados no inverno.

Mariana e Yuri se isolavam em uma bolha quando estavam juntos, e os dois de certa forma se estimulavam ao ponto de desidentificar tudo que estava a volta deles, afinal a praça era sempre a mesma, e eles não. Os velhos, por mais sábios, não passavam de uma representação de cenário unicamente retida pelo inconsciente como um afago de importância, e as esquinas se tornavam traços de ângulos retos desconexos, apenas dignos de dobra e nada mais.

Eles tinham um ótimo relacionamento sem horizontes, e quem conseguisse penetrar a abstração que se colocavam poderia ver que a clara visão que formariam seria a de duas serpentes que mutuamente ascendem, se enrolando em uma união perpétua e de estimulo dúbio, sem privações e nem compreensão de cada.

Após um sorriso de Mariana que antecedeu sua inspiração, Yuri concluiu que o fim de algo sempre vem no final de uma expiração.

Aqueles três passos, que foram dados definiram muita coisa. Os instantes, que se atrasaram, podem ter feito com que uma mulher chamada Samantha, que até agora é desconhecida, escapar de um caminhão que dobraria a esquina segundos depois, mas que se não fosse pelos três passos de Mariana, esses segundos iriam se chocar com a vida de Samantha, a que felizmente (já que vive) está gravida, e seu futuro filho, este embrião, será um famoso cantor de folk e de certa forma irá ser influente, mas não maior que isso: efêmero em seu trágico suspirar, mas ele não vai saber disso, e nem o senhor Alberto.

O Ăşnico caminho Ă© pisando em corpos, mas sem saber.

Yuri viu o último piscar de Mariana, e a camionete a atirou há incontáveis metros longe, fazendo com que batesse o crânio contra o canto da rua, e com a pancada sua testa entrou alguns centímetros para dentro da própria cabeça, pressionando todo o seu cérebro para trás, matando-a simultaneamente. Seu olhar permaneceu o mesmo que encarou Yuri. Um eterno segundo parcialmente esmagado de uma iris desfeita.

Ele viu a traseira da camionete que fugia, e apenas lembra de ver um ramo. E os santos se tornaram monstros e Yuri desmaia.

/ /

Quatro gotas de suor voaram da têmpora de seu Carlos Machado, e de seu colega e primo Rubião Pedro. Ambos tinham uma sincronia familiar que traziam no sangue, e com seus Machados cortavam o viés de vida daquele tronco de anéis que marcavam a idade da Oliveira. Algumas coisas estavam caindo agora além de folhas, talvez fossem lágrimas ressecadas o suficiente por causa do outono, e por isso haviam se tornado folhas. O fio cortava quase faiscando, quase incendiando.

E talvez no Carvalho isso acontecesse.

/ /

Thomas estava levemente com dor de cabeça.

O eco das escadas, e seus passos no corredor do prédio, pareciam se colocar como dedos em forma de galhos, que cutucavam seu cérebro exposto que ressecava com o vento gelado que escorria-se pela veneziana esticada no meio do corredor. Ela contribuía unicamente com uma luz débil, que fazia-o pensar em se matar.

O trinco da porta pareceu enfiar uma estaca em sua tĂŞmpora. E ele tentou nĂŁo pensar nisso.

Seu apartamento estava escuro, e a unica luminescĂŞncia que havia ali era ao fundo do corredor, no quarto, aonde havia deixado a janela entreaberta. Ele nĂŁo acendeu nenhuma luz, apenas soltou sua mochila e ligou o som, que estava plugado na tomada. Ele nĂŁo lembrava o que estava no toca discos. Surpreendeu-se com There There.

E para falar a verdade, ele estava preocupado com sua amiga. Bastante, até.

E sentiu que aquilo que aconteceria nĂŁo teria o impacto da surpresa, e sim uma conclusĂŁo inĂştil, de um Pressentimento suicida. Ele abriu uma lata de coca, e uma carteira de cigarro. Entreabriu a porta da sacada, mas foi impedido pelas batidas na porta.

Nesse momento ele sabia que o Pressentimento estava no parapeito.

Ele abriu e era Mariana. E ela estava chorando. O Pressentimento, por fim, se atirou, quando ele percebeu a mancha roxa nas calças de Mariana. O pior disso é que ele que pariu o Pressentimento, ele sabia.

Ela não disse nada, apenas o abraçou. ele sabia. Aquele abraço era diferente dos quais ela andava dando-o. E os últimos eram completamente diferentes dos quais ela dava no ensino médio. Esse soava quase como um pequeno guardanapo sujo de vomito caindo em cima de uma pedra. E os últimos eram como uma lufada de ar quente em um continente gelado, aonde Thomas e Mariana se diluíam que nem líquidos num copo, e ambos eram indiscerníveis naquele abraço.

— Eu… Eu…

Ela tentava dizer alguma coisa, mas iria ser pior. Mas nĂŁo adiantou, ela rompeu-se, e chorou.

— Não precisa falar.

Thomas disse olhando para o nada em sua frente coberto pelos cabelos escuros de Mariana.

— Como você veio até aqui?

Ele perguntou, afastando-a um pouco.

— De ônibus… Eu não quero ir para casa…

Ela abraçou-o de novo. O ombro dele já estava ficando úmido.

— Você consegue caminhar?

— Sim…

Ela respondeu de forma insegura, devia doer.

Mariana sentou de forma calma no sofá de Thomas. Ela estava pálida. Ele conhece Mariana, e sabe que em todo o percurso que havia feito de ônibus ela não chorou. ele sabia. Mariana precisa confiar na pessoa para poder chorar, e precisa confiar em si mesma para chorar sozinha.

Nesse momento ele percebeu que ela nĂŁo chorava.

— Eu…

E vomitou.

Ela havia se curvado com cuidado, doĂ­a.

— Não se preocupa com isso. Tem uma coca aí no seu lado, pode tomar. Vou ali pegar um pano, já venho.

Ele sorriu de canto, mas sabia que isso não funcionava mais. Enquanto Mariana bebia, lágrimas voltaram a cair.

Thomas escolheu uma camisa velha que servia como trapo. Era uma camiseta do One Piece. (Lembrou-se dos tempos em que os abraços eram felizes, e não necessários).

Thomas ofegava, e estava com medo do que poderia fazer. Aquilo o estava comendo vivo, e havia começado antes dele ter parido o Pressentimento.

Ele voltou com a camisa em mĂŁos. Mariana estava levemente envergonhada, e isso era a Ăşnica cor que havia nela. Ela segurava a coca com as duas mĂŁos no colo, e estava frio. Ela queria que gelasse mais. Ela queria congelar os fatos, mas aĂ­ eles apenas iriam se reproduzir.

Ele se colocou de joelhos. Ele não queria pensar no branco do vomito dela. A Coisa arrancou um pedaço importante dele agora.

Mariana soltou a coca e se mexeu, mas Thomas falou:

— Não. Eu limpo.

E olhou pra cima. (A Coisa olhou pra cima). Ela hesitou, e Thomas sentiu pena. Ele nĂŁo devia ter olhado daquele jeito, nĂŁo agora, ela estava completamente exposta. NĂŁo era muita coisa o vomito, e nem encharcou a camiseta. Ele retornou a despensa, colocou a camiseta na pia, e nunca mais tornou a pega-la.

Ela encarava o chão com grande concentração. Thomas não queria sentir pena dela. Mas ele sabia que ela havia se fragmentado em diversos cacos quando os pais dela se separaram aos 16.

— Eu vim aqui porque…

— Eu sei Mariana.

Ela encarou Thomas nos olhos.

— Meu pai vai ligar, eu sei. Mas não fala pra ele que estou aqui. Por favor.

— Eu não faria isso, não precisa pedir.

Thomas a conhecia.

Novamente ela havia começado a chorar. Apenas lágrimas estavam pendendo de seus olhos, na verdade. Mariana não tinha nenhuma expressão. Thomas foi para o lado dela e lentamente passou o braço por trás dos ombros dela e abraçou-a. Necessidade. Aquilo era vazio. Era dois recipientes que se chocavam e emitiam um eco, eram apenas isso.

O limo da fossa fez Mariana escorregar vagarosamente, mas ambos acham que o fim não está indo, mas vindo.

Eles ficaram ali por alguns minutos. Thomas havia baixado o volume da mĂşsica, mas mesmo assim Echoes era ouvida ao fundo, e estava em sua parte mais tenebrosa.

— Você conseguiu sair sozinha?

Perguntou Thomas depois de um tempo. Ela respondeu que sim levemente com a cabeça.

— Ele terminou e deixou você ir?

— Ele…?

O punho de Thomas fechou-se, e ele achou que iria se cortar com a força que fazia. Mariana não percebeu, mas ela sabia.

Ele fechou os olhos por um tempo. Depois levantou-se.

— Isso não parece estar legal… Você devia…

Thomas esfregava os olhos com força.

— Você…

— Sim, eu tenho, não se preocupa com isso. Tem um creme que as vezes eu passo quando estou com a pele ressecada, acho que pelo menos adiantará um pouco… — Thomas dizia com a mão nos olhos, sentia dor de cabeça.

Mariana se levantou vagarosamente.

— Eu já te levo alguma roupa lá… — Começou Thomas — Você não precisará… de ajuda…?

— Não. — Disse Mariana de forma seca.

Ela foi em direção ao banheiro. Thomas ficou sentado até ouvir o “click” da tranca do banheiro. Depois levantou e escolheu uma calça de pijama e uma camiseta. Ele ficou esperando ao lado da porta do banheiro. Ele não entendia o que ela fazia através dos sons, e por isso se perdeu em suas próprias divagações. Ele sabia que o chuveiro estava ligado, e apenas isso. Parecia que o banheiro estava vazio. E talvez estivesse, como o apartamento inteiro.

O chuveiro se desliga e ele ouve o destrancar da porta. Aparece apenas a cabeça molhada com os cabelos pendentes e encharcados: ela estava linda. Ele sem se virar completamente entrega as roupas e ela se tranca novamente. Ele vai para o sofá, e se senta.

E ali começa: um berro após o outro. Tudo aquilo quicava nas cavernas dele, e ele arranhava as paredes íngremes com as unhas até sangra-las, mas de nada aquilo adiantaria, nada nunca adiantou.

Ela ter feito isso para dar uma chance, talvez tenha valido a pena? É difícil ser preciso sobre qualquer coisa. Mas talvez ela tenha se quebrado sem necessidade. E as vezes as coisas se quebram sem motivo aparente, e Thomas sabe, e Mariana também.

Mariana saiu do banheiro.

O vapor saiu junto com ela. Se confundiam. Mas ali estava: densa e vaga, em meio a conflitos. Que nem todos, mas ao mesmo tempo, diferente, que nem todos. Ela caminhava vagarosamente, e sentou cuidadosamente no mesmo lugar. NĂŁo chorava.

— Você chegou a tomar alguma coisa? — Thomas perguntou.

— Não.

Thomas foi numa gaveta próxima a entrada de sua sala, e abriu-a, tirou de lá um envelope com comprimidos do tempo em que Elisa vinha ali, viu que ainda não estavam vencidos e retirou um e deu para ela, e alcançou a coca que já estava morna. Ela pegou o comprimido e engoliu.

Thomas encarou Mariana nos olhos, e lá viu a profundidade dos cursos de água há muito tempo silenciadas pelos produtos químicos de uma empresa. Empresa de longe, de indivíduos que de certa forma a batiam, e de tanto tempo que faziam isso, chegou um momento em que ela nem sentia mais, e passou a aceitar-se como condição, naquele ritual canibal.

A menina com o pirulito colorido em um guardanapo branco estava parada, e o menino que brincava com pedras a olhou lá de longe e pensou: “Nossa! Ela se parece comigo”, ao mesmo tempo ela pensou: “Já não basta um?”

— Você quer dormir? — Perguntou Thomas.

— Acho que sim…

E lá foi ele para o quarto arrumar sua cama box, que em tradição sempre estava desarrumada. E ela ficou encarando a mesa de centro sendo isso a única coisa que conseguia conceber em sua ansiedade, o resto se bloqueava, mas o cheiro que ainda estava ali e o gosto que sentia em sua boca faziam-na ficar mais tensa, ou pelo menos sustentar a contração de seus músculos da mandíbula.

Depois de eternidades que se acabavam na mesa de centro, ela encara Thomas que havia saído do quarto. Ela lembra vagamente dos dias de chuva de tempos tão fixos e pedregosos, que de tão sólidos e precisos, penetram a carne como uma agulha em que ambos estariam empalados até ressecarem após a morte, ou até se desfazerem em cinzas para renascer ou emplacar a sua possibilidade em alguém que conseguiria construir alguma coisa.

Ela passa por ele, e Thomas sente seu cheiro. Estava uma confusão: sentia o cheiro forte de shampoo, mas lá estava a essência de Mariana, ao fundo, resistindo. O desastre estava feito, e tudo deixou de ser verde, e agora era opaco e lamacento, como um buraco.

Mariana para ao pé da cama.

— Você vai dormir aonde? — Ela o pergunta sem nenhum subtexto, ali ambos estavam em plena tangibilidade.

NĂŁo conseguiriam mentir nem se tentassem.

— Não vou dormir. Mas caso eu tenha sono eu durmo aonde eu estiver, aqui no sofá, provavelmente.

Ela assentiu com a cabeça e deitou-se lentamente.

E Thomas foi para sua sacada sentir o vento gelado vindo do norte naquela noite estranha. Lembrou de várias coisas, mas a descida é perpendicular, e por isso pensou primeiramente que não havia oferecido nada para Mariana comer, mas ao mesmo tempo concluiu que não iria fazer diferença, ela iria recusar.

Acendeu um cigarro.

Olhou para o horizonte mas não via muita coisa, e o que conseguia ver era prédios. Todos grandes e altos, e alguns pequenos e baixos, que nem o seu. Questionou-se o porque que tudo era tão alto, e porque alguns eram tão baixos. “Parece que todo mundo quer ser maior que todo mundo quer ser maior que todo mundo quer ser maior que todo mundo…”. Repetiu isso como alguém que conta ovelhinhas antes de dormir, mas ele não queria dormir, queria ficar bem acordado.

Parece que todo mundo quer ser maior que todo mundo.

Resta apenas saber se estamos na cauda que esta prestes a ser engolida, ou próximo a cabeça que vai engolir. Mas só existe um dragão. Alguém avisa o sindico, pois Thomas não terá a chance.

Ouve-se ao fundo, uma moto.

“Todos eles só crescem desse jeito porque querem ver o sol”. Concluiu ele com uma demorada e calma tragada. Parecia que sua respiração se amenizava aos poucos. E percebeu que tudo era um eterna briga a cotoveladas para ver o horizonte mais nítido.

E com calma conclui que a melhor forma de ver o sol ainda é em um campo completamente aberto. E que o pôr do sol visto de um arranha-céu nunca contempla o horizonte em seu limite.

Thomas olha lá para baixo e vê um homem sentado na beira de uma loja, com uma cerveja na mão. “Ele realmente quer fazer tudo isso?”

“E porque ele está lá em baixo na escuridão se foi ele quem fez os prédios?”

Logo após, sentiu nojo de tudo o que era construído, e raspou seu pé com ódio contra o piso de sua sacada. Amaldiçoou enquanto mordia com tanta força o cigarro que ele se rasgou e se esfarelou no meio do vento. Tudo aquilo impedia ele de ver o sol. De ver as coisas claras, de ver algo.

— Porque eu não vejo o sol?

Riu porque era noite, mas se fosse de dia seria por causa dos prédios. Nisso sente o amargo do cigarro, e jura que podia sentir o da cerveja também.

/ /

Dona Julia estava ansiosa para abrir o envelope que havia chegado. Nele, tinha o brasão da instituição que tanto ela quanto sua filha cobiçavam. Eram os resultados. Parecia que eles ainda enviavam este tipo de coisa pelo correio e isso causou uma boa impressão na mente compreensível da Dona Julia.

Ao abrir, não se conteve: saltou um pequeno grito de exclamação com o papel verde em sua mão. Já corria em direção ao telefone para avisar Mariana, que havia saído para dar uma volta, quando o mesmo toca.

— Alô. — Disse mecanicamente a ansiosa Dona Julia.

— Olá… Eu falo com a senhorita Julia Oliveira da Silva?

— Sim sou eu, com quem eu falo?

— Sou o responsável de plantão…

Julia engoliu tudo o que podia, a seco. As coisas já se diziam a ela.

— Sinto muito Dona Julia, mas sua filha morreu.

As coisas dali para adiante foram completamente diferentes para Dona Julia. E o que ela sentiu nestes dois minutos, se eternizaram e permaneceram como uma sombra, ou um espaço vazio até o fim de sua vida.

/ /

A grande vibração do abalo sísmico foi sentido por Thomas bem antes de ocorrer. Talvez pelo recuo do mar ou não, mas ele teve uma visão. Na verdade era mais uma certeza do que uma visão, pois ela era mais uma aceitação ou contentamento. As placas estavam vindo.

O passado parecia se pressionar pelo lado da porta, e o futuro parecia convergir pelo lado da sacada. O passado com suas mãos quentes e pré-definidas pressionava-as para os braços frios e gelados de seu incerto irmão.

Thomas viu o espectro da noite tornar-se os primeiros raios de sol sentado no sofá. Ele deixou a porta da sacada aberta e ficou sentindo o vento transfigurar-se de uma lâmina afiada para uma brisa de consolo, como alguém que machuca e depois se arrepende.

Seu celular vibrou quando ele percebeu o canto do primeiro pássaro.

Ele o segurou já sabendo quem era. Viu o nome na tela e pensou como lidaria com as consequências de qualquer ato que ele escolheria a partir do atual suspiro. Decidiu se atirar no abismo negro e impulsivo que o impelia a decidir. Thomas atendeu.

(…)

— Alô… Thomas…?

(…)

— Alô… Sim…

— Mariana está contigo?…

(…)

Thomas olhou em direção ao quarto que conservava um silêncio inquietante, daqueles que te fazem se questionar se você existe no meio daquilo tudo.

(…)

— …Independente disso, Thomas… — uma breve pausa — Pode pelo menos me dizer se ela está bem…?

(…)

Thomas mordeu o lábio, e seu olho se encheu.

— Sim, ela está bem.

NĂŁo, ela nĂŁo estava.

(…)

— Não sei se é apropriado… Mas de alguma forma, agrade…

Thomas bruscamente desliga o telefone e o atira pela janela.

/ /

Quando Yuri acorda na ambulância, poucas certezas restavam em sua mente. E algumas estavam muito embaralhadas para ele poder tê-las como certas, mas a única que de certa forma parecia unificar o motivo de tudo aquilo era a de que o mundo já havia acabado.

/ /

— Terminado chefe.

Senhor Alberto estava suado, e todos os seus colegas também estavam. Todas as que deviam estar ao chão, já estavam naquele momento. Apenas esperavam para serem mais fatiadas e moldadas, refinadas e manufaturadas, para servir melhor o mercado. Ou apenas para serem utilizadas para se fazer fogo.

Todos estavam com os machados nas costas. Todos subiram na camionete, fecharam as porteiras e rumaram de volta para casa. A cena inicial se repete: Senhor Alberto estava com o braço para fora e com o vento em seus cabelos, só que agora fumava. Ele atirou sua bituca de encontro ao vento, e ela caiu nas folhas de um Carvalho. As folhas estavam suficientemente frágeis e secas.

Neste momento Mariana Oliveira da Silva, filha de Alberto, morria. E o carro que a atropelará era da mesma firma que a dele.

Haverá fogo no Carvalho.

/ /

O acordar de Mariana foi silencioso, e tudo a partir dali foi de algum modo do mesmo jeito. Ela não falou direito com Thomas e foi para o banheiro, e saiu de lá melhor do que havia entrado. A água sempre faz(fez) bem. Eles não falaram nada, Thomas entrega uma maçã para Mariana, e ele já havia aberto a porta para o corredor do apartamento.

Sem verbos.

Desceram até o estacionamento, que estava úmido. Entraram no carro, que estava gelado. Viram o sol que tentava batalhar contra uma densa nuvem que estava em sua frente, vencendo apenas para traçar pequenas réstias de lâminas douradas.

Eles nĂŁo iam sentir o calor do sol.

Braço direito empurrou a marcha para trás e o esquerdo torce a direção pra direita. Uma grande mandíbula de metal se abre, e um vômito bulímico urbano acontece em simultâneos locais ao mesmo tempo. Um encanamento caótico de pessoas enlatadas, que apenas quinze minutos no transito são necessários para se despertar os leopardos que há em cada um.

O sol batalha ferozmente, ele sabe que ambos os dois precisam daquele calor.

O ar é viciado já na aurora. O sono da cidade deve ser um dos piores que existem. Vira duas esquinas, quatro sinaleiras, um labirinto ordenado ao quadrado. Não basta estar limitado a possibilidade das curvas, mas está também sujeito ao sensor de três olhos.

Osama Bin Laden tentou cortar o caminho pela metade; nĂŁo adiantou.

Chegou-se as largas retas de uma rodovia. Mariana encara o céu, não achando algo. Mas não dá a minima. Ela morde a maçã. O sol desiste de Adão e Eva. E Mariana só pensa que quem teve essa ideia não merecia palmas, e que com certeza não havia pensado nas consequências de Caim e Abel.

É engraçado como a gente morre.

Tipo, talvez em uma possibilidade bem absurda, o sol que nĂŁo saiu, fosse acordar o motorista do caminhĂŁo que dormiu por dois minutos no volante. E seu caminhĂŁo que transportava carnes poderia ter feito menos estrago.

Quando Thomas passou o carro verde que estava na sua frente, ele percebe o eminente. Nos últimos trinta segundos de vida ele foi Tyler. Ele soltou o volante e pegou a maçã que Mariana entregava a ele, e mordeu.

— Éden é o inferno dos inocentes.

E o caminhão bateu com tanta força que o carro se converteu em uma bola vermelha de metal amassado.

/ /

Na televisĂŁo:

— …A batida fez o carro explodir e carbonizar ambos os ocupantes, que por enquanto estão sendo tratados como indigentes…

E sempre foram.

/ /

[texto escrito entre 2016 e 2018, mas ele Ă© sobre as Marianas de 2015].

/ /

~ Well

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