estranhas violetas 🌺

CONTO - A Complexa Equação do Problema da Desvirtualização

O número de Nelson era o 764. Ele esperou contando os fios de suor que desciam de sua cabeça em uma maratona de esqui enquanto encarava uma tia de um metro e cinquenta de altura e meio metro de largura olhando para a tela das chamadas. Ela parecia encontrar um alento no fato de que faltava apenas 18 fichas para a dela.

Quando chegou a vez que antecede a dele, o suor já havia secado, e sua face e pés já estavam adormecidos. Parou em frente de uma linha de cor amarela que contrastava com o chão extremamente cinzento do local, e prestou muita atenção na tramitação da senhorinha que havia estado na sua frente.

Nelson viu quando ela saiu cabisbaixa com sua imensa mala de rodinhas contendo as várias pastas encadernadas de várias páginas de números de protocolos e seções da qual ela não entendia.

Pra falar a verdade nem a Atendente entendia tudo aquilo, ela era apenas contratada para compreender alguns números, e dar algum bom consolo aos atendidos.

— Não se preocupe senhora, tudo vai dar certo. Eu também não entendo esses números, não se sinta mal. — Dizia a moça atrás da mesa, enquanto a senhora seguia até saída com sua face fechada, e a esperança em trapos.

Ouviu o sininho na tela, e seu número apareceu. Sentiu-se lisonjeado e muito feliz, tanto que o fez sorrir e perceber que havia completado uma grande etapa de sua vida como adulto.

Ele prosseguiu em passos lentos e sentou na cadeira estofada com um tecido liso, e ela pareceu esvaziar-se de ar, Nelson nota que a senhora deveria ser bem leve, pois não havia marcação na cadeira aonde a senhora havia sentado, e ele não sentia o calor que as pessoas deixam no assento quando se levantam. Nelson não deu muita bola pra isso, ele estava absorto.

— Pois não senhor? — Disse a Atendente que parecia distante, a qual não olhou para Nelson quando disse isso.

— Trouxe os papéis que consegui lá no outro escritório.

Ele retirou sua mochila e abriu sua pasta, de lá tirou um maço de folhas e colocou na mesa a sua frente. A Atendente desviou o olhar de seu computador e olhou para os papéis, e logo os pega.

Mecanicamente ela começa a folear o grande chumaço de cento e cinquenta páginas e a digitar números no computador. Ela digitava de forma hábil, mas ela nem mesmo percebia isto. Nelson ficou ali encarando o que tinha nas costas da atendente: arquivos, prateleiras de arquivos, impressoras, uma mesa vazia, outra não, um computador ligado com o wallpaper de um campo verde, uma Atendente mais nova que mordia um lápis olhando para o computador, e uma parede.

A Atendente demorou uns quinze minutos para concluir que não entendia nada do que estava naquelas páginas. Mas ao canto percebeu que um número remetia a outro, e que ali faltava um espaço a ser preenchido. Ela, como era de seu trabalho, escreveu alguns números ali para preencher o local, e deixou uma parte mais adiante que já não era de seu entendimento. Ela sabia que era assunto para outro funcionário.

— Senhor. Este número aqui… — mostrou o canto da página — É o número do escritório que o senhor deve passar para por fim adquirir seu número permanente.

Ele fez um “sim” com a cabeça em sinal de confirmação.

— Agora me dê seu número de identificação senhor.

Nelson olhou estranhado para atendente.

— Eu não tenho esse número não senhora…

A Atendente o encara com um olhar fechado. E conclui:

— Então eu não posso fazer mais nada senhor.

Nelson se desespera.

— Mas minha senhora… Meu nome é Nelson dos Santos, joga esse nome aí no seu computador, eu devo ter algum registro.

— Senhor… Meu computador não trabalha com palavras. Na verdade nenhum sistema mais trabalha com isso.

Nisso Nelson entra em uma calma trágica por perceber sua situação. Ao olhar para o teclado do computador, o qual não havia observado ainda, vê que não havia mais o alfabeto lá, apenas números e frações abreviadas em teclas.

Nelson então concluí que na verdade não fazia muita diferença ele estar ali. E que talvez ele não devesse mais tentar, e com isso sentia que seu peso fluía por sua pele. Ele sabia que não teria muitos dias de vida, mas continuava a pagar o plano.

Mas ao aceitar o trágico do mesmo modo que um cavaleiro que se cansa de brigar com moinhos, ele perde tanto as rédeas de seu passado, como também o futuro se torna desinteressante.

Enquanto Nelson encarava o chão ao seus pés, a Atendente diz:

— Senhor. Seu problema precisa ser resolvido em outro lugar. Deixe o assento para o próximo.

— Então eu não existo…

— Não, senhor.

— Oh não.

Então ele se levanta. E o próximo que chegou a cadeira, viu que ela estava gelada e sem marcas.

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~ Well

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