estranhas violetas 🌺

CONTO - A agonia de cronos

Eu me via ao longe como se fosse o horizonte, e minha fronte estava exatamente igual a minhas costas. “Talvez eu seja o horizonte”, penso alto. E eu era, e minha expressão era ingênua.

Me vi no chão aos meu próprios pés, e ali me vi de baixo. Agarrei-me, mas no mesmo momento fui pego. Mas unicamente ascendi em todas as elevações, e eu não me arrependo de ter mãos suadas. Vi-me em minhas mãos como me via nelas. Mas percebo que logo ao me compreender, eu me desfaço como areia que corre para todo o lado, me rompendo em pequenos fragmentos e lampejos.

Vendo tamanha efemeridade, eu sento e choro alto, para que meu choro se choque com a vida de outro. “É um grito” penso, “é um grito convertido em lágrimas e eco”, mas que como uma cachoeira que desce um declive tão profundo para um abismo aonde até mesmo o que ouvimos é um vago eco de mais de 300 anos atrás de água que já se desfez e retornou ao céu em luminescências de vapor.

Estendo-me derretendo tudo que está a minha volta. Eu seguro as coisas em minhas mãos e elas logo derretem. Vejo que há um círculo que pende vagamente a alguns metros, e ele vendo minha tamanha tragédia me questiona:

— Porque fazes isso?

E eu o olho com lágrimas nos olhos:

— Eu não sei!

E continuo o meu eterno choro contido.

Quando me reflito nesse espelho percebo que sou um tremendo erro, e que minha imagem vaga que ali se apresenta não é nada mais do que um mero projetar que eu mesmo imputo ali para satisfazer a minha vontade de existência. Eu apenas me afirmo para me manter ali, teso, mas porém, necessário. Mas a quem? A mim, e recomeçamos.

Um dia eu tentei abraçar alguém, mas eu me esqueci de como faze-lo, afinal não sou digno de reter nada, e por isso a única coisa que me toca é o nada.

E por mais ondulações que eu via tudo não passava de dunas de areia, que mudavam a cada instante a favor do vento, e contra a perfeição. Tudo vai de encontro a perfeição, e eu estou indo agora. Mas eu a como, e a mastigo suficiente bem para não haver nenhum pedaço completamente completo, para que cada um seja um decomposto diferente para compor tudo o mais.

E no fim percebo: eu era o tempo. Mas também havia sido condenado a não sê-lo. E por isso mesmo eu o era, o tempo precisa ser e não ser, e sido, ao mesmo tempo.

Numa sala aonde há um homem e uma ampulheta, eu sou os dois; e não posso fazer nada para mudar isso.

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~ Well

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