estranhas violetas 🌺

As pontes sempre foram buracos

Breve crônica sobre como a gente se segura.

As coisas foram feitas para se cruzarem, e a gente se cruza como se fossemos essas coisas.

Esquecemos enquanto construímos as pontes que elas na verdade também vão servir para se atirarem dela. Ignoramos o chamado do vazio implícito, pois somos homens e mulheres que passam. Somos pessoas que vão, e que as vezes voltam, mas que quase sempre têm saída. Nem sempre há. E não adianta haver saídas se não sabemos onde elas estão. Pois por mais que as árvores façam barulho ao despencarem sozinhas na floresta, estamos aqui falando delas, não estamos? As saídas existem, mas onde? Alguém.

Talvez o fim da ponte, e não a altura. Talvez o meio fio, o casaco que raspa-se contra o concreto áspero de um prédio comercial. O ziguezaguear para evitar o sorvete de uma criança, o leve esgueirar para evitar o cabisbaixo que enxerga a conversa com alguém distante na superfície lisa de seu celular, e as vozes sempre altas… Quem sabe esses caminhos vão se fazendo entre mim e eles, fazendo-se saídas e vazões. E talvez, no fim, nunca tenha havido saída de verdade. As saídas existem para quem não quer sair? Sempre falamos como se quiséssemos ficar, mas não. Vamos, apesar do adiamento. A permanência de mim sempre é uma ideia arrepiante, e só quem nunca ponderou sobre é que acredita que a longevidade é o objetivo. A ponte pelo menos permite a queda.

A porosidade das coisas, essas sobre as quais passamos, é bem relativa. Ela só faz sentido na medida em que as enxergamos horizontalmente pelas vias de passada. Verticalmente elas são aberrantes, afinal, é o beco sem saída absoluto; o verdadeiro dead end de uma ida sem marcha ré. As pontes, por exemplo, são naturalmente porosas, e seus fluxos dependem disso. Claro que de vez em quando, como todo fluxo, há o esbarro, e alguém pode acabar indo dessa pra melhor — ou pra lugar algum: como o chão, ou o patético de massa disforme avermelhada de um acidente de trânsito.

Acidente de trânsito é uma sentença fantástica. Acidentar-se enquanto se cruza. É como se o antes poroso e fluído do fluxo do cotidiano, do saber-se-para-onde-vai, se torna-se de repente rígido como o frio do metal retorcido que lhe perfura as entranhas que você nem sabia que tinha quando deu a seta. Eis a tragédia dos fluxos, que são os imperativos não só do fora, mas como de dentro dos trânsitos e das ruas, das ruelas e das bolsas de valores, e também de filosofias com pressa. O que é poroso, também se fecha. Eis o suspiro do pneuma de nossa condição humana.

Mas a ponte é um traço também, uma linha entre continentes, entre ilhas, entre cidades, entre bairros. Quase sempre é reta, e seu fluxo é venal e binário, pois assim evitamos as verticalidades brutais como a carne exposta, o beijo que surpreende e a carícia sem convite. Nos colocamos sempre entre nós mesmos, porque no fim só queremos passar; estamos em trânsito, somos o trânsito.

Mas minha carícia não é trânsito. Meu beijo não é via de mão dupla, e nem estamos em uma encruzilhada. Geralmente nos barramos no fluxo, mas sem acidente. Vejo teus olhos ali, entre os cotovelos das pressas, entre os maços de cigarros, carteiras cheias de nada e a fritura das barracas. Ali percebemos que não é suficiente, e precisamos nos salvar. Quem se coloca na beira da ponte encarando a própria queda?

O abraço evita a queda as vezes, evita que se seja pego pelo ônibus que é a síntese da pressa de tanta gente explorada. Cá estamos, no beiral, nos encarando. A ponte na verdade parece ser reta, mas é só reta para quem está em trânsito, pois para os que param ela é redonda, um perfeito buraco que clama a queda, a penetração, a salvação e quem sabe o voo, mas com certeza ela é o fim: o meio do caminho. No fim, o suicida sempre sonha enquanto caí.

A ponte enquanto linha é igual uma corda bamba, em que a nossa pressa é boa para o equilíbrio. Mas na hesitação, ela é o buraco perfeito para nosso fim. Ou seja, nosso equilíbrio depende de ignorarmos o perigo sempre próximo da queda. Eis a natureza do trânsito, do passar adiante. Uma hora ele nos mata, o carro passa por cima, e caímos de qualquer maneira, esmagados.

Antes que isso aconteça, nos salvamos aos poucos. Nos abraços e nas pequenas cordas que nos amarram ao fluxo, para no fim dormimos por uma última vez antes de nosso anonimato se tornar a nossa verdadeira identidade, enquanto somos ali esmagados pelo nosso próprio peso impotente, que ou busca o ar desesperadamente ou foge da dor para lugar algum; tudo para ir de encontro a esse sono em narcose de um coma, que em uma face de ódio relaxa-se na medida em que se faz gelado, como uma patética matéria orgânica que esquece-se que foi algo, ou alguém.

A única coisa que salva nossa identidade é a contingência daquele silêncio, e o toque sem imagem daquela noite. Foi nossos olhares no meio da ponte, foi sua mão gelada de encontro a minha mão suada, foi sua respiração ansiosa de encontro ao meu semblante em dúvida. Tudo o que temos é a contingência profunda desse momento, que logo se vai. Nada nos salva do anonimato de nossa morte, só nós. Por isso, me abraça.

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~ Well

#crônicas